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O vácuo no queijo é uma desgraça

05/01/2018 17:06:05 - Por: Edgardo Pacheco, em Correio da Manhã/PT

Um queijo evolui com o tempo. Fica mais complexo. A embalagem a vácuo impede tal riqueza.

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A ideia não é atirar pedras contra a inovação em matéria de embalagens de produtos alimentares, mas não consigo deixar de me arrepiar com a prova de bons queijos fechados em embalagens a vácuo, coitados. 

E porquê? Porque sendo o queijo um elemento vivo, que evolui com o tempo e ganha aromas e sabores terciários e complexos, o vácuo impede tudo isso. Um lote de queijo colocado em vácuo no dia 1 de janeiro de 2017 e provado, digamos, em junho, terá o mesmo perfil se provado em dezembro de 2017. Ou seja, não evolui. 

Noutros tempos comprávamos queijos fatiados na hora em mercearias de bairro. Hoje as compras são maioritariamente feitas em super e hipermercados. E, aqui, já não muita disponibilidade para dar a provar amostras de queijo acabados de abrir para que o consumidor tome a decisão por um queijo ou outro. Vai daí, o vácuo é a solução técnica de recurso. 

Sucede que, há dias, em São Miguel, comparei um queijo São Jorge com 24 meses de cura e embalado a vácuo com uma cunha com o mesmo tempo de vida e acabada de cortar nessa grande instituição que é o Rei dos Queijos (agora com a concorrência de outra casa aberta por um membro da família e que, com bela ironia, resolveu chamar-lhe de Príncipe dos Queijos) e a diferença é do dia para a noite. Quando chegamos a casa com uma cunha de queijo acabada de cortar, a cozinha fica perfumada (enfim, não falamos de queijo da Beira Baixa); quando abrimos uma cunha de queijo fechado no vácuo, não se passa nada. Aroma? Vai atrás dele. 

Com tanta recuperação de conceitos de comércio tradicional, por que razão não renascem mais queijarias de bairro com queijos cortados na hora? Os amantes de queijo agradeciam.