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Vazio de esperança

08/02/2018 10:23:47 - Por: Jornal a Hora

Sem perspectivas para o fim da crise no setor, agricultores procuram outras opções para estancar sangria da cadeia leiteira.

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Milhares encerram a produção e abalam pilar da economia do Vale. Sem perspectivas para o fim da crise no setor, agricultores procuram outras opções para estancar sangria da cadeia leiteira. Com o custo de produção acima do valor pago pelo litro in natura, famílias acumulam prejuízos. Autoridades públicas e representantes do segmento tentam encontrar uma solução. Ao menos três municípios estudam decreto de emergência ou calamidade financeira.

O produtor rural Jonas Müller, de Teutônia, conta os dias para deixar a produção de leite. Após acumular R$ 40 mil de prejuízos na atividade em 2017, vendeu parte do rebanho de 40 vacas em dezembro, e o restante será comercializado nas próximas semanas.

Aos 27 anos, Müller é um dos mais de mil produtores que abandonaram a atividade no Vale do Taquari desde janeiro de 2017. Dois anos antes, em 2015, ele investia na ampliação da produção. “Chegamos a chamar a minha irmã, que trabalhava na cidade, para ajudar a tocar a propriedade.”

Na época, a família realizou um planejamento estratégico para os dois anos seguintes, frustrado com a queda no preço pago ao produtor. Como o leite representa 80% do faturamento da propriedade, Müller agora pensa em alternativas para mantê-la aberta.

“Estamos com uma plantação de soja e planejando trabalhar com criação de terneiras”, ressalta. Segundo ele, boa parte dos produtores que hoje ainda trabalham com o leite tenta trocar de setor. “Gostamos da atividade, mas estamos pagando para trabalhar”, aponta.

Para a família Berwanger, de Estrela, a decisão de abandonar o leite foi tomada logo no início da crise. Moradores da linha São José, os irmãos Cecília, 65, e Oswaldo, 59, decidiram vender no início de 2017 os animais que produziam cerca de 1,3 mil litros por dia.

Hoje, a propriedade se mantém com uma granja de suínos e plantações de milho, trigo e soja. “Quando paramos, o litro era vendido a R$ 1,35. Ganhamos na loteria por ter parado logo”, diz Cecília. Para o irmão, a situação é resultado do descaso dos governos estadual e federal com os produtores rurais.

A propriedade ainda conserva o prédio e os equipamentos onde eram realizadas as ordenhas. Segundo ele, a estrutura foi fruto de um investimento de R$ 30 mil realizado em 1992. Apesar de ser um valor considerável para a época, ressalta que o financiamento de cinco anos foi pago com tranquilidade com os recursos provenientes da atividade.

“Hoje, os produtores fazem financiamentos muito mais longos e não conseguem quitar”, alerta. Para o agricultor, se anos atrás o trabalho rural era considerado o futuro da região, hoje não existem mais atrativos capazes de manter as famílias no campo.

Na propriedade de Oswaldo Bewanger, em Linha São José, em Estrela, prédio da ordenha é ocupado para secagem de milho para pipoca

Emergência ou calamidade pública

Ao menos três municípios estudam a possibilidade de decretar estado de emergência ou calamidade pública devido à crise do leite. A medida foi sugerida na semana passada, em reunião do Sindicato dos Trabalhadores Rurais em Arroio do Meio.

O assunto será debatido em reunião da Amvat amanhã. Secretário de Agricultura de Arroio do Meio, Eloir Lohmann afirma que já foi iniciada a coleta de assinaturas e os levantamentos para viabilizar a proposta. Além de Arroio do Meio, a medida também é avaliada em Estrela e Travesseiro.

Secretário de Agricultura de Estrela, José Adão Braun afirma que pelo menos 80 famílias abandonaram a atividade em 2017 no município.

“Estrela está em situação pior do que os outros municípios da região, pois temos o maior volume de produção do Vale”, ressalta. Segundo ele, o decreto de calamidade ou situação de emergência ajudaria a chamar a atenção das autoridades para o drama vivido pelos agricultores.

Na sessão da câmara de segunda feira, os 13 vereadores fizeram um requerimento pedindo a decretação de estado de calamidade pública financeira. O texto foi remetido ao prefeito Rafael Mallmann.

Secretário de Planejamento de Travesseiro, Lari Hofstetter calcula em cerca de 50 o número de produtores que abandonaram a atividade no ano passado. “Muitos agricultores querem vender as vacas e abandonar, mas ninguém mais quer comprar gado leiteiro.”

Conforme Hofstetter, cada produtor perde em média R$ 0,70 por litro de leite produzido. Com isso, aponta, deixam de circular cerca de R$ 5,6 milhões por ano na cidade.

Somente em retorno do ICMS, alega, Travesseiro perde cerca de R$ 50 mil por mês. “É a crise mais grave que o estado já viu”, enfatiza. Para ele, se a situação não for revertida, os produtores irão à falência, o que trará dificuldades também para as agroindústrias e cooperativas.

Debate em Anta Gorda

Principal feira da região voltada para a produção leiteira, a Festleite 2018 também será palco de debates sobre a crise. Para o presidente do evento, Vanderlei Moresco, hoje o setor leiteiro vive o pior momento de sua história.

“A cadeia como um todo está sofrendo, o que inclui desde o produtor, os comerciantes e as fábricas de laticínios”, aponta. Segundo ele, a intenção da feira é incitar uma discussão que aponte caminhos para o fim da crise, além de ser uma propaganda do leite e seus derivados.

As autoridades regionais são unânimes em apontar as medidas capazes de amenizar a crise. A principal seria impedir as importações do produto em pó até o preço atingir patamares aceitáveis, para depois estabelecer cotas de importação.

Outra ação defendida é a busca por novos mercados externos para ampliar as exportações.