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Precisou de antibiótico? Utilize a prudência sem moderação

10/08/2017 11:11:27 - Por: Manual CCPR de Boas Práticas Aplicadas à Produção de Leite. Controle de Resíduos de Antibióticos

O uso de antibióticos em animais de produção é um procedimento fundamental para o tratamento e prevenção de doenças, principalmente para o controle da mastite.

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Não é novidade para ninguém que o uso de antibióticos em animais de produção é um procedimento fundamental para o tratamento e prevenção de doenças, principalmente para o controle da mastite. Mas para que seja de qualidade e seguro para consumo, o leite deve estar isento de resíduos de drogas veterinárias, como antibióticos e pesticidas.

Os antibióticos são extremamente importantes e necessários para a atividade leiteira, mas a sua utilização deve ser racional e ocorrer somente quando houver real necessidade. Caso contrário, produtor, indústria e sociedade podem ser penalizados com prejuízos econômicos, na produção e também relacionados à saúde pública.

Normalmente, os resíduos de antibióticos e de outros antimicrobianos chegam e são veiculados pelo leite a partir de aplicações por via intramuscular, intravenosa, subcutânea ou intramamária. Segundo a médica veterinária Mônica Pinho Cerqueira, professora da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenadora técnica do Laboratório de Análise da Qualidade do Leite da UFMG, quando é realizada uma aplicação via intramamária, por exemplo, a absorção do antibiótico ocorre pela corrente sanguínea e os resíduos são excretados pelo leite, nos quatro quartos mamários. "Embora não haja comunicação entre os quartos mamários, é importante que o produtor esteja atento ao fato de que aplicando em um quarto este antibiótico também será eliminado pelos outros que não foram tratados", esclarece.

Como forma de alertar os produtores sobre os problemas que podem ser causados por um simples descuido ou esquecimento, a CCPR | Itambé desenvolve uma série de ações no sentido de promover o controle de resíduos de antibióticos no leite. "O controle de resíduos de antibióticos integra nosso programa de educação continuada. Para tratar o assunto com importância que ele merece, elaboramos uma cartilha de boas práticas, um banner com orientações sobre o manejo dos animais em tratamento, adesivos de alerta para afixação na sala de ordenha, além da programação de visitas periódicas da equipe de supervisores às propriedades", detalha Janaina Giordani, coordenadora de Desenvolvimento do Produtor CCPR.

Nas regiões de Uberlândia e do Alto Paranaíba, no Triângulo Mineiro, desde fevereiro deste ano vem sendo realizada a Blitz Antibióticos, que até o momento contabiliza 400 fazendas visitadas, como conta o supervisor de Projetos e Qualidade da CCPR Leonardo Manuel Duarte Ferreira. "O objetivo do trabalho é treinar os colaboradores das fazendas e conscientizar os produtores sobre a necessidade do controle e redução do número de ocorrências. Ainda temos cerca de 100 propriedades para visitar e o balanço até o momento é muito positivo, a redução foi significativa."

Para reforçar o que foi explicado na blitz, os produtores também recebem mensagens no celular e lembretes no vale de fornecimento de leite. "A blitz é uma visita específica para falarmos sobre o controle de resíduos de antibióticos no leite, mas nos outros encontros que temos com os produtores também tocamos no assunto", diz Ferreira.

Causas

Os prejuízos têm efeito cascata. Como muitos produtores ainda utilizam os medicamentos de forma indiscriminada, sem a orientação de um médico veterinário, e caminham na contramão do que recomendam os fabricantes, acabam aumentando os riscos de ocorrência de resíduos de antibióticos no leite. "A utilização do antibiótico é necessária, isto é fato. O grande gargalo que a gente tem hoje é a falta de controle no uso, aplicação incorreta das dosagens, ausência de um protocolo correto de tratamento e mais, antes mesmo de avaliar se a droga está sendo eficaz na tratativa da doença o produtor já troca de antibiótico ou faz associação de medicamentos. Ainda é importante lembrar que, como nem todos os pontos de venda exigem receita, a facilidade de compra contribui para que tudo isso aconteça", pontua Janaina Giordani.

Os exemplos que levam ao erro são inúmeros. Entre eles: alteração por conta própria da via de aplicação recomendada na bula, o que, por sua vez, altera o período de carência; e a associação de medicamentos, que também potencializa o período de carência. A maioria das ocorrências de resíduos de antibióticos no leite identificadas pela equipe de campo da CCPR estão relacionadas a falhas na marcação dos animais.

Ou seja, não é raro as vacas receberem tratamento e não serem identificadas corretamente. Com isso, acabam sendo ordenhadas com os animais sadios. E quando realizam a marcação, apontam os relatórios, algumas vezes produtores e funcionários se esquecem de registrar o primeiro dia em que o medicamento foi aplicado e acabam perdendo o controle do período de carência, que varia de acordo com a droga utilizada. As doenças que mais geram ocorrências de resíduos de antibióticos são as mastites, metrites e tratamentos de casco.

Prejuízos

Mesmo com um programa de controle rigoroso, câmeras de monitoramento espalhadas em pontos estratégicos da propriedade e treinamentos periódicos com a equipe, a Fazenda São José, localizada em Uberlândia (MG), sentiu o dessabor de ser penalizada por uma ocorrência de resíduo de antibiótico. "Produzimos leite há quase 20 anos e foi um choque para todos nós. Isso nunca havia acontecido e, confesso, não é uma experiência boa de se passar", lamenta o produtor Thiago Soares Fonseca, associado da Cooperativa dos Produtores Rurais do Triângulo Minero e Alto Paranaíba (Cotrial).

A causa, conta Adilson Cavalcante Bezerra, foi a não marcação da vaca. "É um procedimento-padrão da fazenda colocar três marcações em todos os animais em tratamento. Não consigo acreditar que uma vaca consiga se livrar de todas elas em uma noite. Então penso que esta vaca foi medicada e na correria não colocaram as marcações nas patas e no pescoço. Na ficha constava a aplicação do medicamento, mas ela não estava marcada", argumenta o gerente da fazenda.

A ocorrência aconteceu no dia 1º de maio deste ano, data em que foram coletados 6.637 litros de leite na propriedade e que posteriormente foram descartados pela indústria. No dia seguinte, foi realizado novo teste, agora na fazenda, e mais uma vez foi identificado resíduo de antibiótico no leite. Considerando todas as perdas de leite e a penalização aplicada pela CCPR, no valor de R$ 0,02 por litro sobre o volume total do mês, o produtor contabilizou um prejuízo aproximado de R$ 26.000.

Depois do episódio, como medida de segurança passaram a ser realizadas duas reuniões por mês com a equipe ao invés de uma, o lote das vacas em tratamento mudou de lugar e os funcionários, além de fazerem a anotação, foram orientados a colocar por cima da prancheta, de forma bem destacada, os dados do animal que iniciou o uso de medicação naquele dia. "A ocorrência nos trouxe um transtorno muito grande porque tudo gira em torno de um planejamento mensal. Continuo acreditando que trabalho com pessoas comprometidas e a lição que fica é a de que todo cuidado é pouco quando estamos realizando uma tarefa. É preciso ter atenção e intensificar a comunicação entre os pares para que este tipo de problema não volte a acontecer", considera Thiago Fonseca.

Indústria

Para a indústria, os prejuízos estão relacionados aos impactos na produção, uma vez que detectado o resíduo todo o volume é imediatamente descartado. "Quando isso acontece, temos o prejuízo por não realizar a programação de fabricação dos produtos que estava prevista e também o prejuízo financeiro, referente às despesas com a descaracterização do leite e envio para descarte em local apropriado", enumera Janaina Giordani.

Teste

Quando o caminhão chega à indústria, além de todas as análises físico-químicas é realizado o teste qualitativo de resíduos, ou seja, que indica se há ou não presença de base de antibiótico naquela matéria-prima. Quando há ocorrência, é feito o rastreamento dos produtores daquela rota e pelas amostras individuais é possível identificar de qual fazenda veio o resultado positivo. A partir daí, o supervisor faz uma visita para o produtor a fim de buscar as causas que levaram à presença de resíduo no leite e realiza novamente o teste para verificar se a matéria-prima que está no tanque está liberado ou não para coleta.

Os testes utilizados pela CCPR são mais sensíveis do que a referência estabelecida pelo Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e pelo Codex Alimentarius (coletânea de padrões reconhecidos internacionalmente), que serve como base para os laboratórios farmacêuticos. São também reconhecidos pelo MAPA e recomendados pela Organização Mundial de Saúde. "Para cada base farmacêutica, o PNCRC e o Codex definem qual é o limite máximo de resíduo (LMR) permitido para o consumo humano.  Por exemplo, o LMR da base Tetraciclina é 100 ppb (partes por bilhão), o que utilizamos já detecta com 30 ppb", explica Janaina Giordani.

Também como forma de contribuir para o controle de resíduos de antibióticos no leite, caso um produtor tenha dúvida se um animal está ou não liberado para voltar ao lote de produção é oferecida a ele a possibilidade de enviar uma amostra do leite desta vaca para a realização do teste. "O teste é feito na fábrica e é cobrado do produtor apenas o custo do kit utilizado", acrescenta a coordenadora.

Saúde pública 

A professora da UFMG Mônica Cerqueira diz que entre os problemas de saúde pública gerados pela ocorrência de resíduos de antibióticos no leite "o mais importante está relacionado ao aumento da pressão de resistência das bactérias a esses medicamentos com o passar dos anos". Segundo ela, já existe confirmação de que essa resistência pode estar relacionada diretamente ao uso de medicamentos na produção de leite, carne, ovos e vários outros produtos de origem animal. "Isso significa dizer que estamos diante de uma possibilidade real de aumento da pressão de resistência a bactérias que causam por exemplo a mastite e que podem estar relacionadas a quadros de infecção hospitalar no homem. Muitas vezes, só percebemos a gravidade do problema quando ficamos sabendo de alguém, que por alguma razão, deu entrada no hospital e ficou internado com quadro de infecção hospitalar que não responde aos antibióticos", contextualiza.

Existe um dado da Organização Mundial de Saúde, compartilha a professora, que estima que em 2050, 10 milhões de pessoas no mundo irão morrer por infecção causada por microrganismos resistentes aos diversos tipos de antibióticos. "Por esta e outras questões, é preciso ter prudência ao usar qualquer medicamento", reforça.

Como evitar o risco de resíduos?

• Implantar um programa de controle sanitário baseado em medidas preventivas;
• Marcar e identificar as vacas tratadas;
• Separar os animais em tratamento e ordenha-los por último;
• Descartar o leite de todos os quartos das vacas sob utilização de medicamento;
• Anotar todos os tratamentos realizados;
• Usar somente medicamentos recomendados para animais em lactação, autorizados pelo MAPA e prescritos por um médico veterinário;
• Respeitar o período de carência informado na bula do medicamento ou recomendado pelo médico veterinário. Descartar pelo menos uma ordenha a mais que o necessário aumenta a margem de segurança;
• Não alterar a dosagem recomendadas na bula ou prescrita pelo médico veterinário;
• Não fazer associação de drogas sem recomendação veterinária;
• Promover treinamentos com os colaboradores sobre o uso correto de antibiótico;
• Armazenar todas as drogas em local adequado, separando os medicamentos para vacas secas em um compartimento e para vacas em lactação em outro. Deve-se restringir o acesso à farmácia apenas aos responsáveis pelo tratamento.

Principais causas de presença de resíduos de antibióticos no leite

• Descumprimento do período de carência;
• Falha na identificação dos animais tratados;
• Uso de medicamentos em dosagens diferentes das recomendadas na bula ou pelo veterinário;
• Descarte de leite apenas do quarto tratado;
• Ausência de registros precisos dos tratamentos;
• Falha na programação de secagem das vacas;
• Utilizar medicamentos para tratamento de vacas secas em vacas em lactação;
• Ordenha acidental de vacas secas;
• Esquecer de desviar a mangueira do tanque antes de iniciar a ordenha das vacas em tratamento.