As estações do ano nos preços

29-04-2019 10:54:12 - Por: Mariane Crespolini, Mestre e doutoranda em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp, pesquisadora e pecuarista em DSM Tortuga

A bovinocultura de corte é uma atividade plurianual e com diversas etapas produtivas.

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A produção agropecuária é marcada pelas estações do ano. Aliás, todo o planejamento é atrelado aos fatores climáticos e sazonais, como temperatura, pluviometria e horas de sol. Conforme o período das águas vai chegando ao fim, começamos a adotar estratégias de manejo para a seca. Você sabia que é possível fazer o mesmo em relação aos preços e à comercialização dos animais?

Para começar esta análise vamos primeiro “apartar os lotes”. A bovinocultura de corte é uma atividade plurianual e com diversas etapas produtivas. Podemos então falar sobre as “estações do ano” da Cria e da Recria-Engorda, separadamente. E, também, sobre o comportamento plurianual, popularmente conhecido como ciclo pecuário. Vamos começar a análise pelas estações do ano do mercado pecuário.

Sazonalidade dos preços

O que determina o preço? O preço do bezerro ou do boi gordo é determinado por uma série de fatores: sexo, qualidade genética, tamanho do lote, manejo nutricional adotado, distância da propriedade de origem até o comprador final, e, até mesmo, pela concentração do mercado. A situação econômica do país, também influencia. Apesar de todos estes fatores, a época em que o animal é comercializado é uma das variáveis que mais afetam o comportamento dos preços ao longo do ano, sendo possível até identificar um padrão de variação nas cotações, tal como ocorre com os fatores climáticos.

Bezerro

O bezerro é a principal fonte de receita do criador e também o item que mais pesa nos custos de quem faz a recria-engorda. Como ilustrado na Figura 1, a “estação climática” de baixa dos preços ocorre entre setembro e fevereiro, sendo que a “menor temperatura” dos preços tende, historicamente, a ser registrada em janeiro.

Já a estação de alta dos preços ocorre de abril a julho, sendo que a máxima costuma ocorrer no mês de julho. Março e agosto são os meses de transação, onde os preços estão muito próximos ao que seria a média anual (base 100).  Ao longo do ano, a diferença entre os preços mais baixos e mais altos é de 5%, já descontada a inflação.

O setor está mudando e cada vez mais passamos a olhar para a qualidade e potencial genético. A comercialização, aos poucos, não é mais feita por animal, ou como nós pecuaristas dizemos, “na perna”, mas sim no quilo.

De acordo com os dados do Cepea, os animais mais pesados são comercializados na “estação das altas”, em junho e julho. Já os animais mais leves são vendidos entre dezembro e janeiro.

Então, quando analisado o preço médio por quilo de bezerro vivo, a estação das altas de preço é um pouco mais curta que na análise dos preços por animal, mas tende a ocorrer no mesmo período, como ilustra a Figura 1. Um ponto importante, é que na análise por quilo, a diferença entre preço mínimo e máximo ao longo do ano é apenas 2,6%, também já descontando o efeito da inflação.

Figura 1: Índice de Sazonalidade dos Preços do Bezerro (Indicador Esalq/BM&F)
Fonte: Cepea. Elaboração Mariane Crespolini

A sazonalidade dos preços do bezerro, seja por quilo ou por animal, é explicada porque os meses de maio e junho são aqueles de maior qualidade, denominado pelos produtores de “bezerro do cedo”: a vaca não passou por desafios nutricionais durante a gestação, o animal tende, em média, a nascer mais pesado e, ao desmamar, tem oferta de forragem em boa quantidade e qualidade.

Para quem vende o bezerro, se comercializar os animais entre março e agosto, a probabilidade de obter preços acima da média anual (linha preta, tracejada da Figura 1) é maior. Mais um motivo para a realização da estação de monta, além de todas as vantagens zootécnicas. Para quem compra o bezerro, será que adianta olhar apenas para preço?

O que se observa, na prática, é que os animais melhores e possivelmente mais caros, tendem a ter uma maior capacidade de resposta ao manejo nutricional adotado na fase seguinte. Também tem o potencial de proporcionar um giro mais rápido da sua atividade. Isto tudo, claro, tem que estar alinhado com outros fatores produtivos da sua propriedade, como a disponibilidade de pastagem.

Porém, se optar por animais mais leves, faça as contas do tempo em que ele irá ficar a mais na sua propriedade, bem como o custo disto. Em algumas situações, o retorno econômico pode ser maior. Cada compra, assim como cada propriedade, é única e os resultados são diferentes. Relevante é fazer o planejamento.

Boi Gordo

A Figura 2 apresenta o comportamento sazonal dos preços do boi gordo, considerando toda a série histórica do Indicador Esalq/BM&F do Boi Gordo de julho de 1997 até novembro de 2018. Como a imagem ilustra, considerando toda a série de dados do boi gordo (linha verde da Figura), a estação das altas de preço tende a ser entre setembro e janeiro. Já a de baixa de março a julho. Fevereiro e agosto são os meses de “troca de estação”, onde os preços estão muito próximos à média (base 100 – linha preta tracejada da Figura). Ao longo do ano, a diferença entre os preços mais baixos e mais altos é de 7,4%, já descontada a inflação. O preço mínimo tende a ocorrer em maio e o máximo em novembro.

Porém, ano após ano mais pecuaristas adotam estratégias de terminação mais intensivas, seja o semiconfinamento ou o confinamento. Com isto, o comportamento dos preços também tem mudado. Ainda no comparativo com as condições climáticas, é como se a adoção de tecnologia fosse um fenômeno como o aquecimento global, influenciando nas temperaturas ao longo do ano.

Conforme ilustrado também na Figura 2, a linha laranja apresenta a mesma análise, mas considerando os últimos dez anos de dados históricos do Indicador do Boi Gordo. Veja que a estação de baixa de preços foi empurrada um mês a frente, para início e término, e que o preço mínimo não é mais tão marcante em maio, sendo os valores de maio a agosto muito próximos um do outro. Novembro, por sua vez, continua sendo o mês que tende a registrar preço máximo. Com a adoção de tecnologias, é reduzida a diferença entre a safra e a entressafra, e a diferença entre os preços mínimos e máximo fica em 5,4%.

Esta análise é importante para o seguinte cenário: se você tem boi gordo pronto para abate em abril, e não está contente com os preços, optando por segurar o boi até maio, com a esperança de que os preços subam, é importante que tenha em mente que a probabilidade disso ocorrer é estatisticamente pequena. Pode ocorrer? Pode! Mas a probabilidade é menor.

Essa probabilidade é menor porque a partir de maio a oferta tende a aumentar. Além disso, com a entrada da seca o produtor precisa liberar o pasto. E, também há outro motivo: geralmente você não é o único a segurar os animais em abril com a expectativa que os preços melhorem em maio. Isto causa um efeito que na economia se denomina de “efeito manada”. Muitos produtores tomam a mesma decisão e os preços respondem a isso.

Figura 2: Índice de Sazonalidade dos Preços do Boi Gordo (Indicador Esalq/BM&F)
Fonte: Cepea. Elaboração Mariane Crespolini

Ciclo pecuário

A análise anterior refere-se às estações do ano dos preços. Mas, sabemos que a bovinocultura é uma atividade plurianual. E, então, temos a necessidade de analisar o ciclo dos preços. O princípio básico para entender o ciclo é compreender o abate das fêmeas, pois a máquina produtiva da pecuária é a vaca!  

A Figura 3 apresenta, nas barras verdes, a participação das fêmeas no abate total de 2000 a 2018. Veja que há uma tendência de sobe e desce nas barras. Este movimento é o que caracteriza o “ciclo pecuário”. No período recente, de uma baixa a outra, que caracteriza um ciclo, dura aproximadamente seis a sete anos, com tendência a reduzir em função dos ganhos em produtividade. Mas houve períodos passados em que o ciclo durou dez anos.

Em economia falamos que os agentes são racionais, isto é, aumentam a produção quando os preços estão em alta. Isto também pode ser denominado de “efeito manada”: a maior parte dos agentes econômicos toma decisões na mesma direção, influenciados pelos preços atrativos. É o que nós, produtores rurais, fazemos. Quando os preços do bezerro melhoram, a maior parte dos criadores tende a segurar as fêmeas e o inverso também é verdadeiro. Quando os preços estão em baixa, as fêmeas são descartadas. A Figura 3 ilustra esse fenômeno: quando as barras verdes “sobem” a linha laranja, que é o preço do bezerro, desce!

A relação entre abate de fêmeas e preço do bezerro é mais direta e mais fácil de ser compreendida. Mas não é só isso, os preços do bezerro (linha laranja) e do boi gordo (linha azul) também caminham juntos.  Os preços do boi e do bezerro são do Indicador Esalq/BM&F, em valores reais, deflacionados pelo IGP-DI de outubro de 2018.

Figura 3: Comportamento dos preços do bezerro e do boi gordo e da participação das fêmeas no abate total, 2000 a 2018
Fonte:  Cepea e IBGE. Elaboração Mariane Crespolini

A Figura 3 também ilustra um ponto importante: faz três anos, desde 2015, que os preços do boi e do bezerro apresentam viés de baixa e estabilidade. Por mais que tiveram variações, de um mês para o outro, inclusive de alta, o “carrinho da montanha russa” mostra uma tendência de descida naquela curva maior do ciclo pecuária.

Veja agora na Figura 4, a síntese da tomada de decisão do pecuarista com as variações dos preços. Em azul é o movimento de alta dos preços. Quando o preço do bezerro sobe, há retenção de fêmeas e maiores investimentos na Cria. Com menos fêmeas disponíveis para abate, há uma maior dificuldade de atender a demanda por carne e preencher a escala da indústria frigorífica. Com isto, os preços da arroba do macho também sobem. Há um efeito então que ajuda a sustentar ou até mesmo impulsionar um pouco mais o preço do bezerro: o terminador também fica mais animado para comprar a reposição. Consequentemente, há maior produção de bezerros.

Com o aumento da produção, inicia-se o ciclo de baixa, em vermelho. A produção aumenta e os preços tendem a cair. Lei da oferta e procura. Quando os preços cedem, o criador desanima e aumenta o abate de fêmeas. A maior disponibilidade de fêmeas para abate, por sua vez, pressiona a arroba do macho. O terminador desanimado tende a oferecer menos pelos animais de reposição, até que a oferta de bezerros reduz. Com isto, inicia-se o movimento de alta, em azul na Figura 4. Como já mencionado, o ciclo dura de seis a sete anos. Deste modo, cada fase, alta e baixa, tende a durar de três a quatro anos.

Figura 4: Ciclo de Preços na bovinocultura de corte
Elaborado por Mariane Crespolini.

Portanto, se historicamente o ciclo no período recente tem durado em torno de seis anos e já faz três anos que o mercado se encontra no ciclo de baixa, esta é uma evidência de possível virada de ciclo, podendo ser em 2019 ou 2020.  Não é possível prever o futuro, muito menos a variação dos preços de uma semana para a outra, mas quando nos afastamos e olhamos o gráfico o efeito do ciclo no mercado é impressionante.

A tomada de decisão

Analisar sazonalidade de preços é o mesmo que falar em estações do ano. Sabemos que em meados de setembro tem início o período das águas e que, em meados de abril, as chuvas tendem a reduzir. Não adianta torcer para chover mais em maio do que em março. A solução é que planejar e administrar nossa produção em função das tendências. É exatamente assim com os preços e também com o ciclo pecuário.

Há uma tendência e geralmente ela se mantém. Em alguns anos, existem fenômenos como o El Niño que afetam o clima, podendo inclusive resultar em quebra de safra. Isto também pode ocorrer com os preços. Foi o que ocorreu com a carne fraca e com a delação dos irmãos Batistas em 2017. Estes choques também podem vir com altas (ou quedas) inesperadas de demanda. Mas, são choques e não tendências.

Não conheço um empresário bem-sucedido que seja pessimista. Deste modo, o primeiro passo é ver os pontos positivos da atividade pecuária. Por isto, na tomada de decisão, eu gosto da ferramenta “RIA”. O “R”, vem de Razão. É o que busquei apresentar nesta análise. O “I” é Intuição. Por mais que a intuição seja algo menos racional, ela é capaz de captar influência e momentos mais recentes do mercado. Use muito sua intuição buscando perceber para onde está indo o “efeito manada” dos seus vizinhos.

De nada adianta o “RI” se não tiver o A: de Ação. Se analisarmos, observamos e mesmo assim não tomarmos uma decisão, de nada adianta. Por isso, um processo decisório tem que buscar aumentar a rentabilidade do negócio e garantir assim o sucesso da atividade. Ele tem que ser otimista: RIA!