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A queda de braço entre os laticínios e produtores de leite

16/10/2017 09:32:27 - Por: Scot Consultoria

Entrevista realizada pela Scot Consultoria ao professor Paulo do Carmo Martins

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Scot Consultoria: Professor, porque tantos produtores estão saindo da pecuária leiteira?

Paulo do Carmo Martins: O mundo entrou em uma nova etapa, e nós da atividade pecuária, mas especificamente da pecuária leiteira, temos que caminhar urgentemente para esse processo, onde pecuária de precisão será a tônica, onde as empresas não oferecerão mais produtos e sim serviços, onde a informação circulará de maneira profundamente intensa e onde quem não tiver alinhado à todas essas transformações não terá condições de sobreviver.

Nos últimos anos o leite está expulsando produtores que não conseguem se adaptar à nova realidade. E essa velocidade de expulsão vem sendo cada vez mais rápida.

Mas há uma perspectiva produtiva para tudo isso, porque se a automação no setor urbano é algo preocupante porque elimina empregos, no caso da pecuária leiteira será a redenção, afinal é muito complicado produzir leite todos os dias do ano e a máquina vai ajudar a suprir essa demanda.

Scot Consultoria: Atualmente qual o faturamento da cadeia de leite e lácteos no Brasil, como esse indicador comportou-se nos últimos anos e quais são as expectativas?

Paulo do Carmo Martins: Quando falamos do setor “lácteo” como um todo, para quem não é da atividade, as pessoas ficam impressionadas. Nós não reconhecemos algo que é muito importante para a cadeia. A cadeia é longa e também tem um faturamento muito elevado.

Aproximadamente 67 bilhões de reais será o faturamento da cadeia como um todo ao longo de 2017. Ano passado foi de aproximadamente 90 bilhões, este preço mais elevado foi devido à alta de preços, mas nesses últimos doze meses os preços caíram muito.

No varejo, o leite longa vida caiu 26% e, no conjunto, de acordo com o IPCA do IBGE, nos últimos doze meses a queda foi de 15% no preço pago pelo consumidor. Isso então impacta a cadeia.

Mas a verdade é que, o faturamento e a geração de empregos continuam muito altos. Somos uma atividade que necessariamente é industrial, não existe o leite de mesa como existe a laranja de mesa, a maça de mesa... Todo produto lácteo é industrial, e com isso você alonga a cadeia.

São cerca de 11 mil caminhões que todo dia circulam pelas estradas brasileiras captando leite, são aproximadamente 2 mil laticínios com Serviço de Inspeção Federal (SIF) e mais tantos outros com selos de inspeção estadual ou municipal.

Nós temos aproximadamente 900 mil produtores que todo dia se dedicam a atividade e isso cria uma capacidade de geração de emprego e renda que faz com que o leite seja a cadeia mais importante em termos de formulação de desenvolvimento brasileiro.

Lembramos muito da soja, faz sentido, mas a soja é uma cadeia pequena, a soja é importante porque gera dólares, mas gera muito pouco emprego.

E a perspectiva continua muito boa, porque temos no Brasil duas coisas que nenhuma tecnologia consegue criar, a primeira é uma população que cresce e a segunda é uma população que cresce e ainda é jovem, e o jovem tende a consumir. E é por isso que nós temos a chegada de novas empresas, ou comprando 100% das empresas brasileiras ou sendo minoritárias em laticínios mais exigentes.

Essas empresas querem vir para cá porque o consumo médio per capita brasileiro ainda é de 170 litros por habitante/ano, o padrão europeu/americano é de 270 litros, nós temos, portanto, condições de crescer 100 litros por habitante/ano nos próximos anos. E isso é uma dádiva que temos que preservar e cultivar porque gera emprego e renda por todo Brasil. Apenas cerca de 62 municípios não produzem leite no Brasil, isso mostra o vigor do setor.

Scot Consultoria: Em sua opinião, qual o principal gargalo na produção de leite nacional?

Paulo do Carmo Martins: O principal gargalo para o setor é ainda o problema de produtividade, isso faz com que o leite brasileiro seja muito caro. Nós temos a soja mais barata do mundo, temos o milho altamente competitivo, mas temos um leite ao produtor muito caro. Isso acontece porque a produtividade é baixa. Nós precisamos evoluir nesse ponto.

Mas também temos outro gargalo que é a qualidade. A qualidade do leite brasileiro precisa melhorar para que possamos ter um produto com maior rendimento industrial e com isso o produtor possa ser melhor remunerado.

Scot Consultoria: Em função do consumo de lácteos ser diretamente relacionado com a renda, em anos de crise, como a que vivemos nos últimos anos, qual a sugestão para aumentar a vendas e reduzir os prejuízos tanto do lado da indústria como do produtor?

Paulo do Carmo Martins: O Brasil tem uma característica importante. Temos tecnologias de produção adaptadas às condições tropicais. Só o Brasil tem isso. Nós conseguimos evoluir muito na parte de melhoramento genético animal e vegetal e isso cria um estoque muito favorável para o produtor.

Agora em relação ao consumo, ainda temos muita condição de crescer, à depender da renda. Mas temos que lembrar que ao longo da história brasileira, a renda vem crescendo continuamente. Nós somos um país diferente, a ponto de acharmos que é normal essa característica de o filho ter condição melhor que o pai e o pai ter condição melhor que o avô.

A cada geração a gente melhora as condições de vida e o consumo, que de maneira geral impactam na cadeia toda do leite. Mas isso não é regra geral no mundo. A regra geral no mundo é uma geração crescer, a outra decrescer e assim continuamente, e não necessariamente fazer essa trajetória de sucesso como vimos no Brasil, porque a cada 20 anos nós estamos com uma geração mais rica. E isso fica demonstrado no leite. Só para termos uma noção clara, há 40 anos o Brasil consumia 1/5 do que consome hoje, e a população apenas duplicou nesse período.

Scot Consultoria: Comparativamente com outros importantes países produtores de leite onde podemos reduzir os custos, visto que a produção nacional é uma das maiores?

Paulo do Carmo Martins: Nós temos dois desafios pela frente, o primeiro é gestão. Sem gestão fica difícil reduzir custos e boa parte dos produtores não tem noção de quanto é seu o custo de produção. Então é preciso conhecer custos para fazer gestão.

E com base na gestão é preciso também incorporar tecnologias, porque as tecnologias tem essa característica de melhorar a qualidade, aumentar a rentabilidade e diminuir custos. Aplicar tecnologias nas propriedades é algo vital para que possamos melhorar o custo de produção. O leite brasileiro tem um custo de produção muito elevado e não são por questões naturais, são por problemas de organização dentro da propriedade leiteira.

Scot Consultoria: Nos últimos anos qual foi a evolução tecnológica que a produção e o processamento de lácteos sofreram no país?

Paulo do Carmo Martins: Nós tivemos uma transformação muito grande em termos de oferta de soluções nos últimos anos. Hoje temos variedades de pastagens apropriadas para diferentes biomas brasileiros, a Embrapa, por exemplo, acaba de lançar um novo azevém só para região Sul, que chama BRS integração. Lançamos há 10 meses o capim BRS Capiaçu, que é apropriado para a produção de silagem, que resolve o problema grave de estiagem que boa parte do Brasil é submetida, ou seja, criamos várias alternativas com capins clonados.

Na parte de melhoramento genético animal também tivemos uma evolução substancial, e como exemplo posso mencionar a nova tecnologia que a Embrapa criou que é uma equação genômica que permite que os touros Girolando, que estão sendo acompanhados pelo programa de melhoramento genético, tenham uma acurácia maior em termos de previsibilidade no que diz respeito a qualidade genética de suas filhas, essa tecnologia praticamente duplica a acurácia. E isso é um melhoramento substancial porque saber que tipo de progênie você terá quando usar o sêmen de um touro faz toda diferença.

Também evoluímos em termos de informação no setor, embora precisamos evoluir muito mais nesse aspecto. A Scot Consultoria e a Embrapa são um exemplo disso, porque geram informação de qualidade e segurança para o setor.

Então, relacionados à produção, as tecnologias vem acontecendo e o produtor vem incorporando elas.

Pelo lado da indústria também vemos uma movimentação. Começamos a ver claramente um processo de inovação que há muito tempo não acontecia, como o lançamento de novos produtos, novas embalagens, busca por novos pontos de venda... Isso tudo vai demonstrando que o setor apresenta uma vitalidade muito importante para que possamos continuar crescendo o consumo per capita independente da crise conjuntural que estamos submetidos.

Scot Consultoria: O atual sistema de pagamento aos produtores pelo leite produzido do nosso país é eficiente? Quais as mudanças que o senhor sugere visto que isso pode melhorar a qualidade do produto fornecido?

Paulo do Carmo Martins: A questão da qualidade é o ponto nevrálgico do setor e nós precisamos evoluir, porque a maioria das empresas não estimulam o produtor a melhorar a qualidade.

Mas por outro lado, as empresas que são muito corretas e rígidas na questão da qualidade acabam sendo prejudicadas, porque existe uma competição de empresas que não são tão rígidas assim e que aceitam o leite que não é de boa qualidade.

Isso tem que estar muito caracterizado no preço e também na produção, aquele produtor que não tem qualidade não pode ser aceito. Nós precisamos melhorar em termos de fiscalização por parte do governo, e em termos de políticas remuneratórias por parte das indústrias. Dá para contar nos dedos de uma mão às empresas que realmente criam estímulos visíveis e perceptíveis para o produtor em termos de preços.

E o próprio consumidor é o motor de tudo isso. As grandes empresas estão no caminho certo em termos de buscar qualidade, quem trabalhar melhor a qualidade vai ganhar mercado, mas nós precisamos resolver a falta de gestão da cadeia produtiva dos laticínios, que ainda são somente compradores de leite e não trabalham com gestão de captação e não desenvolvem a qualidade com seus fornecedores.

Nessa nova etapa da era digital, na qual as informações circulam com muita facilidade, estou convencido que a qualidade passou a ser o ponto de referência em termos de organização da cadeia e aí tem que ter o esforço de todos os agentes para que os resultados sejam obtidos.