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Leite A2 e prova de leite a pasto são temas de palestras na PecBrasília 2017

31/10/2017 09:04:44 - Por: Embrapa

É preciso desmistificar o ‘ódio’ ao leite”, afirmou, alertando, por outro lado, sobre o excesso de conservantes em leites UHT encontrados no comércio.

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A Embrapa Cerrados e parceiros promoveram, na última quinta-feira (26), duas palestras de interesse para a bovinocultura leiteira do Planalto Central: o polimorfismo da proteína beta-caseína em zebuínos leiteiros e os resultados parciais da 2ª Prova Brasileira de Produção de Leite a Pasto do Zebu Leiteiro do Centro de Tecnologias para Raças Zebuínas Leiteiras (CTZL) da Embrapa Cerrados. As palestras foram realizadas durante a Mostra Tecnológica da Pecuária do Distrito Federal e da Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride) – PecBrasília 2017, realizada de 25 a 29 de outubro no Parque de Exposições Agropecuárias Granja do Torto, em Brasília.

A primeira palestra abordou a importância do leite bovino como fonte energética, proteica, de gorduras, vitaminas e sais minerais para o ser humano, bem como as variações (polimorfismos) na molécula da proteína beta-caseína, que tem 13 variantes conhecidas, os efeitos causados à saúde pela ingestão de leite de animais que contêm beta-caseína A1 e as perspectivas de mercado para o leite com beta-caseína A2. 

A beta-caseína A1, que pode provocar reações alérgicas em determinadas pessoas, é resultado de mutação sofrida pela beta-caseína A2, menos alergênica e presente, acredita-se, em 100% dos primeiros rebanhos bovinos domesticados. Com o uso de genotipagem em laboratório, são identificados animais de genótipo homozigoto (A2A2) para beta-caseína A2. Se cruzados com animais também A2A2, todos os filhos serão A2A2 e produzirão leite com beta-caseína A2. “A ideia, hoje, é selecionar esses animais”, disse o pesquisador Carlos Frederico Martins. 

“De modo geral, as raças zebuínas mantêm uma frequência alélica de A2 elevada. Mesmo assim, temos que identificar os animais”, reiterou o pesquisador, que mostrou exemplos de touros em catálogo para venda de sêmen já genotipados para beta-caseína, além dos próprios animais da Prova de Leite a Pasto do CTZL, na qual os animais Gir Leiteiro apresentaram frequência do alelo A2 acima de 90% nas duas edições, enquanto todos as novilhas Sindi foram identificados como A2A2. 

Leite A2

O médico cardiovascular e produtor rural Paulo Horta Barbosa da Silva lembrou que o leite pode ser tanto um alimento como um medicamento, devendo ser desfeita a predisposição de certos setores da classe médica contra o seu uso. “Temos que ingerir proteína animal e vegetal e gordura. E a melhor gordura para absorver as vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K) é a do leite. É preciso desmistificar o ‘ódio’ ao leite”, afirmou, alertando, por outro lado, sobre o excesso de conservantes em  leites UHT encontrados no comércio.

O médico apontou que o leite bovino é uma importante fonte de proteínas (entre elas, as caseínas) de fácil digestão e elevado valor biológico, além de conterem aminoácidos essenciais em quantidades e proporções adequadas.  A digestão da beta-caseína A2 em lactentes resulta na produção de prolina, aminoácido componente do colágeno, proteína não alergênica presente nas células. Já a casomorfina-7 proveniente da beta-caseína A1 é um opiáceo semelhante à molécula da morfina. 

Segundo estudos, 5% das crianças são alérgicas ao leite de vaca, e que a alergia tende a atenuar com o tempo. Mas, em alguns casos, a reação alérgica pode ser grave, e os sintomas podem ser asma, diarreia, vômitos, e a pele pode apresentar eczemas, bolhas, urticárias e edemas. Cerca de 15% das crianças continuam a ter sintomas após os 10 anos de idade, e a presença da casomorfina-7 no organismo pode causar alterações da cognição, infarto agudo do miocárdio, diabetes mellitus tipo 1, diminuição da resistência imunológica, inflamação gastrointestinal e isquemia miocárdica.

Horta explicou que parece haver uma correlação cruzada entre o alelo A1 e a intolerância à lactose – incapacidade de digerir o açúcar do leite e que depende da relação lactase (enzima)/lactose. “A eliminação da beta-caseína A1 da dieta, diminuindo a inflamação intestinal que inibe a lactase, pode permitir maior produção da enzima, combatendo a intolerância à lactose, estatisticamente mais frequente que a alergia ao leite”, disse. “Há muito ainda o que se pesquisar, embora muitos pacientes tenham se beneficiado do leite A2, clinicamente”, completou. 

Oportunidades

Enquanto os Estados Unidos, a Austrália e a Nova Zelândia já contam com indústrias que beneficiam o leite A2 desde a década passada, o Brasil ainda não tem uma legislação específica nem mercado estruturado do produto. A extensionista rural da Emater-DF, Flávia Lage, no entanto, aponta que o leite A2 pode vir a ser um nicho de mercado para os pequenos produtores. “Na Austrália, o preço de comercialização é o dobro do leite convencional, ocupando 10% do mercado de leite fresco”, observou. 

Ela citou algumas iniciativas existentes em Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul e no Distrito Federal para a produção do leite A2 e, no caso gaúcho, também derivados. A extensionista salientou que para se ofertar leite A2A2 é necessário alto controle sobre a segregação da produção, pois ela se destina a pessoas com limitação alimentar. “Um animal A1A2 já compromete toda a produção”, afirmou.

Lage abordou alguns pontos da legislação existente para a formalização da pequena agroindústria em nível federal, como a Instrução Normativa nº 5 de 14/02/2017 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que possibilita a expansão da comercialização a outros Estados; e em nível distrital, como a Lei nº 5.800/2017 e a Portaria nº 58, de 10/07/2017, que ainda precisam ser regulamentadas. 

Prova

Na segunda palestra, o analista e médico veterinário da Embrapa Cerrados, Álvaro da Fonseca Neto, apresentou os resultados para as 34 novilhas e vacas das raças Gir Leiteiro e novilhas Sindi participantes da 2ª Prova Brasileira de Produção de Leite a Pasto do Zebu Leiteiro do Centro de Tecnologias para Raças Zebuínas Leiteiras (CTZL) da Embrapa Cerrados. 

Realizada em parceria com a Associação dos Criadores de Zebu do Planalto (ACZP), a prova zootécnica busca identificar matrizes de raças zebuínas leiteiras adaptadas às condições de Cerrado e com potencial genético para produção sustentável de leite a pasto. Durante o período de 305 dias de lactação em pasto rotacionado, são avaliadas a qualidade (gordura, contagem de células somáticas e proteína) e a produção do leite, o intervalo do parto à concepção, conformação racial e a persistência da lactação. Os partos animais ocorreram entre 09/11/2016 e 30/01/2017.

Neto abordou os procedimentos adotados durante a prova, que será finalizada em novembro, como o manejo alimentar e dos bezerros; produção e a qualidade do leite; reprodução, sanidade e conformação racial; e os itens (e respectivos pesos) componentes do índice fenotípico geral. Em seguida, apresentou os desempenhos parciais de cada um dos animais, destacando o pico e a média de produção de leite. 

O analista explicou que os criadores poderão utilizar as informações geradas para trabalhos de multiplicação e seleção de animais adaptados à região tropical e que tragam rentabilidade à produção de leite a pasto. “O intuito da prova é dar condições de manejo e bem estar para que o animal expresse todo o potencial genético. Aqui apresentamos os dados e um direcionamento. O produtor deve avaliar o seu animal e verificar a situação em relação a outros rebanhos e o que é preciso melhorar no sistema de produção”, disse.

Após as apresentações, o chefe geral da Embrapa Cerrados, Cláudio Karia, agradeceu à Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural do DF, à Emater-DF e à ACZP pelo espaço dado à Unidade na PecBrasília 2017. “É muito bom estar com vocês, que são nossos parceiros. Nossa missão é desenvolver tecnologias e inovações que façam a diferença para o produtor e beneficiem toda a sociedade. Esse foco é o que diferencia a Embrapa”, afirmou.