Baixa oferta de leite e desabastecimento no pós-greve sustentam movimento de alta Baixa oferta de leite e desabastecimento no pós-greve sustentam movimento de alta

20-06-2018 10:39:49 - Por: Natália Grigol, em Boletim do Leite Cepea

Mesmo com o início da safra no Sul do País, a pressão da baixa oferta para os próximos meses ainda é forte.

Baixa oferta de leite e desabastecimento no pós-greve sustentam movimento de alta
A greve dos caminhoneiros no final de maio estabeleceu um novo marco em termos de perspectivas para o setor lácteo. Antes, ainda havia dúvidas sobre a continuidade da valorização do leite ao produtor em junho e julho, por conta da demanda enfraquecida. Após a paralisação, no entanto, a expressiva diminuição da oferta já vem pesando no processo de formação de preços no campo e deve garantir a sustentação do movimento altista nos próximos meses.

O bloqueio de rodovias e o desabastecimento de combustíveis prejudicaram o fornecimento de insumos para a produção e também o transporte do leite para as indústrias. Assim, a oferta no campo, já impactada pelo clima desfavorável, foi ainda mais reduzida com o descarte de leite no campo. Em recente estudo, o Rabobank estimou que a captação recuou 20% no País apenas em maio, o que deve diminuir a oferta em 6% no segundo trimestre, na comparação anual. Em relação ao mesmo período de 2017, o banco estima queda de 9%.

Sem matéria-prima, as atividades industriais estiveram limitadas ou suspensas entre o final de maio e início de junho. Ao longo dos 11 dias de paralisações, o transporte de derivados para os canais de distribuição e as negociações também foram significativamente comprometidos. Como resultado, os estoques tanto da indústria como do varejo se reduziram expressivamente e de forma homogênea. Ou seja, no pós-greve, as empresas tiveram que lidar com a situação conjunta de desabastecimento, produção limitada, matéria-prima cara e esvaziamento de estoques, fatores que impulsionaram as cotações dos derivados entre o final de maio e a primeira quinzena de junho – mesmo diante da demanda enfraquecida.

Apenas nos últimos 15 dias úteis (de 25/05 a 15/06), o preço do leite UHT (longa-vida) comercializado entre indústrias e atacado do estado de São Paulo registrou alta acumulada de 29,3%, saltando de R$ 2,45/litro para R$ 3,15/l. O aumento expressivo nos valores ocorreu como única saída para as empresas recomporem seus estoques e poderem, assim, normalizar seus negócios – o que deve ocorrer até o final de junho. Vale lembrar que as negociações do UHT servem como termômetro para o setor, visto que o derivado é um importante formador de preços do leite no campo.

Segundo agentes de mercado, a diminuição da produção e a necessidade das empresas em recompor estoques de lácteos elevaram ainda mais a competição de laticínios para garantir o fornecimento de matéria-prima antes do pico da entressafra. Desse modo, o preço do leite ao produtor deve registrar a quinta alta consecutiva em junho, podendo, inclusive, superar o maior preço verificado em 2017.

Mesmo com o início da safra no Sul do País, a pressão da baixa oferta para os próximos meses ainda é forte, tendo em vista o atraso das chuvas no Sul, a elevação dos preços dos grãos e o grande número de produtores que deixaram a atividade no último ano. Além disso, o racionamento da dieta dos animais, por conta da escassez de insumos durante a greve, também pode comprometer o funcionamento fisiológico dos animais, os picos de lactação e a produtividade nos próximos meses. Assim, é possível que a menor oferta continue a pesar na precificação do leite e sustente a valorização também em julho.

Mas é importante lembrar: o poder de compra do consumidor segue enfraquecido diante da estagnação econômica. Isso significa que a absorção das recentes altas ocorreu em função do cenário crítico de desabastecimento, mas sua continuidade é bastante incerta depois da normalização dos negócios e reabastecimento de estoques e gôndolas. Diante disso, é possível que a estabilidade que antecede a queda de preços tipicamente observada em setembro possa, neste ano, se adiantar.