Mercado da saudade gera receita milionária

31-07-2018 13:49:15 - Por: Diário do Comércio

Empresas investem na exportação de produtos típicos para atender a demanda de brasileiros no exterior como o pão de queijo, o doce de leite, o biscoito de polvilho e o café.

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Sustentado pelos brasileiros que moram no exterior e que buscam nos produtos nacionais uma proximidade de casa, o “mercado da saudade” chama a atenção das empresas, que percebem o nicho como uma importante porta de entrada para o mercado externo. De olho nessa oportunidade, empresas mineiras também entram no jogo e vão muito além das montanhas do Estado, levando aos norte-americanos, europeus e até asiáticos o gostinho de produtos com a cara de Minas Gerais, como o pão de queijo, o doce de leite, o biscoito de polvilho e o café.

Com duas plantas instaladas no município de Machado, no Sul de Minas Gerais, a Reserva de Minas é uma das empresas mineiras que tem explorado o mercado da saudade. A indústria de doces exporta, desde 2010, para os Estados Unidos, Portugal, Suíça e Alemanha os doces derivados de frutas, sendo que 80% dos consumidores são brasileiros morando nesses países. Este ano, a empresa expandiu sua atuação no mercado norte-americano com a exportação também do doce de leite.

“O doce de leite era muito pedido pelos consumidores nos Estados Unidos, mas demoramos a exportar porque ele dependia de uma certificação específica junto ao Serviço de Inspeção Federal (SIF), que assegura a qualidade de produtos de origem animal. No ano passado decidimos que era hora de atender essa demanda e conseguimos a certificação”, relata o diretor comercial, Leandro de Souza Gonçalves. A indústria enviou, no início deste ano, sua primeira remessa com 2.200 caixas e 12 toneladas de doce de leite.

O diretor afirma que a Reserva de Minas já trabalha na produção do segundo contêiner, que deve chegar em breve ao País. A expectativa dele é que, a partir de agora, a indústria envie um contêiner a cada 60 dias para esse fornecedor, localizado em Nova Jersey. Além disso, a indústria deve procurar fornecedores em outras regiões dos EUA para aumentar sua exportação. “Atualmente as exportações representam 5% do faturamento da indústria. Acredito que, com a exportação do doce de leite, essa representação deve chegar a 20% no ano que vem”, aposta.

A fábrica, que começou na cozinha do seu fundador com a produção do doce de nata e o processamento de dez litros de leite por dia, hoje produz 60 toneladas de doces por dia a partir do processamento diário de 20 mil litros de leite. Além do tradicional doce de leite, a Reserva de Minas tem em seu portfólio opções zero açúcar, além de doces de frutas, cocada, ambrosia, doce de nata, goiabada cascão e em lata, além de geleias.

Pão de queijo - Com 27 anos de operação e fábrica instalada em Luz, no Centro-Oeste do Estado, a indústria de alimentos Maricota leva, há dez anos, uma das principais receitas mineiras para fora do País: o pão de queijo. De acordo com a gerente de negócios internacionais da Maricota, Marília Espalaor, a empresa exporta para 17 países, sendo que 85% do público consumidor no exterior é formado por comunidades brasileiras.

“Eu costumo dizer que o brasileiro sai do Brasil, mas o Brasil não sai dele nunca. Quando a pessoa se muda, continua buscando os produtos de sua terra. É muito difícil morar fora e não sentir falta da comida do país de origem, principalmente se esse país é o Brasil, que tem uma culinária riquíssima”, afirma. Para a gerente, esses brasileiros que moram fora acabam consumindo até mais do que consumiriam se estivessem no País. “A comida brasileira faz com que se sintam mais perto em casa”, completa.

De acordo com Marília Espalaor, o principal mercado da Maricota no exterior são os EUA, onde a marca atinge não apenas os brasileiros, mas os próprios norte-americanos e também outros latinos, que têm grande identificação com a comida brasileira. Pensando nesse público de imigrantes nos EUA, a Maricota está desenvolvendo um pão de queijo diferenciado: o pão de yuca, que leva menos queijo e mais mandioca na receita. “É um produto que tem mais a ver com o gosto dos equatorianos, colombianos e caribenhos, por exemplo. Estamos em fase de finalização e embalagem dessa produção”, adianta.

Segundo a gerente, a Maricota faturou R$ 128 milhões em 2017, sendo que a exportação representa 4% desse montante. A expectativa da executiva é dobrar as parcerias da marca fora do País e chegar a novos países, como México, Chile, Panamá, Colômbia e Equador. A meta é aumentar a representação da exportação no faturamento para 10% em 2019.

Produtos caem no gosto do consumidor estrangeiro

Não há dúvida de que a comunidade brasileira é um nicho importante para garantir a chegada e a consolidação de empresas nacionais no exterior. Mas, depois que o produto brasileiro se estabelece no mercado externo, ele ganha a chance de crescer não apenas entre os próprios brasileiros, mas também entre os nativos do país e entre os imigrantes de outras regiões.

É o que tem acontecido com a indústria mineira de biscoitos, Vale D’ouro, que tem sede em Formiga, no Centro-Oeste do Estado. De acordo com o diretor comercial e da área internacional, Alexandre Soares Lima, cerca de 40% do público que consome o produto da empresa nos EUA é formado pelos norte-americanos e pelos hispânicos. Por causa disso, a indústria está investindo cerca de R$ 15 milhões na ampliação de sua produção para fabricação de uma nova linha de biscoitos com foco no consumidor dos EUA.

De acordo com diretor, o aporte será aplicado na expansão física da fábrica e na compra de maquinários italianos para a produção de minicookies. Essa linha tem receita baseada na quitanda mineira e segue o conceito “sem glúten e sem lactose”. A expectativa é que a primeira remessa saia em outubro e chegue aos Estados Unidos em novembro. “O mercado da saudade é muito importante para abrir as portas para os produtos brasileiros. Muitas redes nos EUA perceberam a quantidade de brasileiros por lá e têm investido em produtos do nosso País para uma sessão que eles chamam de produtos étnicos. Por outro lado, temos uma representatividade alta de consumidores nos EUA que não são brasileiros e, por isso, temos apostados neles também”, explica.

Outro exemplo de empresa mineira que tem ido além do mercado da saudade é a indústria Café Fazenda Caeté, localizada em Campo Belo, no Sul de Minas Gerais. Depois de levar seu produto para a China, para o Japão e para os Emirados Árabes, a empresa enxergou no mercado asiático a oportunidade de implantação de uma importadora. De acordo com o diretor comercial, Fernando Reis Costa, a indústria está investindo cerca a de R$ 200 mil na abertura de uma empresa em Hong Kong, que vai importar diversos produtos brasileiros.

O executivo explica que a estratégia da empresa é reunir esforços de empresas que querem exportar para a Ásia e ganhar força nesse mercado a partir de uma representação instalada no continente. “Temos visto muitas empresas pequenas tentando chegar ao mercado asiático, mas elas estão trabalhando sozinhas. A consequência disso é um produto brasileiro solto na prateleira e sem chamar atenção. Nosso objetivo é exportação em bloco: assim conseguimos uma gôndola só com produtos brasileiros e chamamos a atenção de quem nasceu no Brasil, mas também de quem quer conhecer os nossos produtos”, afirma.

A indústria criou uma estrutura de uma distribuidora em sua sede em Campo Belo, que vai exportar os produtos brasileiros para a empresa na China. Além do seu próprio café, a empresa quer representar outras marcas de café, além de produtos como cachaça e cerveja artesanal. A expectativa é que a distribuidora comece a operar em outubro deste ano.