E se o Brasil parasse de produzir leite?

03-12-2018 10:11:26 - Por: Thiago Pereira, Zootecnista pela Universidade Federal de Viçosa em Compre Rural

Com um grande impacto na economia do país, a cadeia do leite é um dos pilares do agronegócio.

Responsive image
Na base da cadeia produtiva do leite, o produtor rural, estão espalhados por 99% do território nacional, com um rebanho de aproximadamente mais de 23 milhões de vacas ordenhadas, são mais de um milhão de propriedades rurais produzindo leite. Esses dados possuem flutuações, devido a saída/entrada de propriedades na atividade.

Com um grande impacto na economia do país, a cadeia do leite é um dos pilares do agronegócio. Entretanto ainda é uma cadeia sem “união” por parte dos seus integrantes. Esse fator, juntamente com as fake news que são veiculadas para reduzir o consumo do produto, fazem com que o elo produtor da cadeia sofra amargamente com os baixos preços recebido pela indústria. 

Não podemos esquecer também da falta de políticas públicas para fortalecimento do setor, que alias, favorece apenas a indústria e tem prejudicado o produtor com o alto volume importado de leite. Diante disso, fica o questionamento: “E se o produtor fechasse a porteira e parasse de produzir leite?”. Vamos tentar entender a importância do produtor de leite para a sociedade brasileira.

Quantidade de leite captada

Segundo dados do Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), foram captados pelos laticínios com algum tipo de inspeção, em 2017, superou os 24 bilhões de litros de leite. Por ser um produto com grande influência da sazonalidade, é comum que na época das águas exista uma maior oferta do produto. Entretanto, com a saída de muitos produtores da atividade, o incremento até o momento não foi tão expressivo.

Consumo de leite

O Brasil possui uma população de mais de 209 milhões de habitantes, segundo dados do Banco Mundial. Em uma conta simples, ou seja, sem muito porém, a população possui um consumo de mais de 110 litros de leite/habitante/ano.

Vale lembrar que o produto lácteo de maior consumo é o leite UHT, e que o consumo do leite e dos seus derivados está atrelado ao poder aquisitivo da população. O brasileiro tem o consumo de derivados – queijo, iogurte – muito abaixo da média, quando comparado com países desenvolvidos.

A estimativa para a população brasileira, em 2026, é de 219 milhões de pessoas, segundo dados do IBGE. Para abastecer esse mercado, mantendo o consumo atual, seria necessário um incremento na produção anual de mais de 13 milhões de litros de leite.

Valor movimentando

Com uma boa representatividade no PIB nacional, o leite é um importante setor para a economia nacional. O setor possui mais de 4 milhões de trabalhadores envolvidos no trabalho. Sem considerar as empresas com serviço de inspeção estadual e municipal, são mais de 2 mil indústrias processadoras com o SIF – Serviço de Fiscalização Federal.

O leite brasileiro movimentou, em 2015, mais de R$ 28 bilhões, considerando um preço médio de R$ 1,20 por litro de leite captado e processado nas indústrias. Lembrando que 2015 foi um ano de recessão para o Brasil. Já temos a estimativa de que o setor movimenta mais de R$ 60 bilhões de reais ao ano. O leite é responsável por movimentar economia de pequenas cidades, contribuir para a distribuição de renda e gerar empregos permanentes, principalmente na área rural. 

Tabela 1 – Números do setor leiteiro em 2015 divulgados pela EMBRAPA:
Preço Pago

O preço pago ao produtor é sempre o primeiro ponto de partida para qualquer matéria sobre o setor, fator esse que é justificado pelas práticas utilizadas pela indústria para “engabelar” o produtor. A sociedade acha que o produtor recebe altos preços pelo leite, já que a mídia sempre se preocupa em divulgar manchetes como “preço pago ao produtor tem alta pelo segundo mês consecutivo”, se esquecendo de mostrar a realidade que o produtor vive, dentro de um cenário de esquecimento por parte do governo e laticínios.

Segundo dados do Cepea, o preço pago ao produtor vem sofrendo queda a vários meses. Veja as imagens abaixo, elas confirmam o amargor que o produtor tem aguentado para se manter na atividade:


Importação de leite 

Quando o produtor reclama do preço recebido, a justificativa é sempre a mesma: um consumo fraco e estoques abarrotados nos atacadistas. Pois bem, se os estoques estão altos e o consumo está fraco, por que o governo permite que seja importado um volume tão alto de leite dos nossos vizinhos?

Segundo o Secex, que divulgou seu relatório dia 07/11, os dados da balança comercial láctea do Brasil é de uma alta movimentação nas importações. As importações de Leite em pó equivaleram ao volume total importado de 155,6 milhões de litros, que foi 69% superior ao registrado em setembro, e 115% maior em relação a outubro de 2017.

Ressaltamos ainda, que a interna­lização dos lácteos importados, em 2016, correspondeu à uma produção de 4,5 milhões de litros de leite/dia e, que equivalem a substituir 4.500 produtores com produção média diária de 1.000 litros. Manter esse nível é um grande problema pois poderá ser mais um fator de estímulo para o produtor deixar a atividade, e em curto prazo, dificulta as negociações de preços entre produtor e indústria.

Beber leite faz bem

Os últimos anos foram marcados pelo modismo das “dietas”, ou seja, grande parte dos nutricionistas e o personal trainer colocaram na cabeça das pessoas que o leite era o maior vilão nas dietas. Nada mais certo do que cortar o consumo deste alimento, certo? Não, totalmente errado.

“Atualmente, tem sido de grande hábito da população a diminuição ao consumo de leite e seus derivados. O leite e seus derivados são as principais fontes naturais de vitaminas D e cálcio. Por sua vez, ajudam a manter um equilíbrio corporal e a estabilidade do nosso esqueleto” explica o Dr. Rômulo Flister Junior, que é Médico Clínico Geral e Coordenador Médico na Unidade de Pronto Atendimento Leste – PBH.

Resumindo 

O produtor brasileiro tem amargado os altos custos de produção, falta de políticas governamentais e a queda no preço recebido pelo leite entregue aos laticínios. Independe disso, o produtor tem lutado para se manter na atividade, mesmo que, na maior parte, as suas contas estejam no vermelho.

Com um produto de alta qualidade, o produtor de leite é o único que produz e entrega um a indústria sem saber o quanto irá receber por esse produto. Trabalhando, na maior parte do tempo, com uma promessa de melhoria que acaba assim que chega o boletim do leite, quando esse descobre que o aumento esperado ficará para, quem sabe, no próximo mês.

Diante desses fatores supracitados, vamos pensar se realmente o produtor de leite poderia fechar sua porteira e mudar de atividade. Imagine que o Brasil parasse a sua produção de leite, qual seria o cenário?