Tripanossomose bovina: relato de caso em um rebanho leiteiro no município de Esmeraldas, Minas Gerais

08-05-2019 10:47:36 - Por: Silvia Amorim Gomes, Isabella Bias Fortes e Leandro Silva de Andrade, em Revista V&Z

No Brasil a transmissão ocorre de forma mecânica, por picadas de insetos como mutucas, moscas dos estábulos e também por fômites contaminados.

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O Trypanossoma vivax é um protozoário que acomete o sistema circulatório dos ruminantes (MIDAU et al., 2016) causando a tripanossomose, acarretando em grandes impactos econômicos em rebanhos leiteiros (ABRÃO, 2009). De origem Africana, este hemoparasita é transmitido ciclicamente pelas moscas Tsé-tsé, enquanto que nas Américas, devido a sua capacidade de adaptação conseguiu se manter na ausência do vetor biológico, sendo transmitido de forma mecânica pela picada de insetos nativos como as mutucas e as moscas dos estábulos (PAIVA et al., 2000). Outra forma de transmissão mecânica já relatada é a forma iatrogênica por fômites contaminados, além da introdução de animais infectados no rebanho (SILVA et al., 1997; BARBOSA et al., 2015).

A tripanossomose geralmente ocorre em forma de surtos causando grandes perdas econômicas, uma vez que tem sido responsável por provocar abortos, infertilidade, queda na produção de leite, anemia, mortalidade, além dos gastos com diagnóstico e tratamento (SEIDL et al., 1999). Os principais métodos de diagnósticos podem ser divididos em três grupos, sendo eles, parasitológico, sorológico e molecular (SILVA et al., 2002). Os métodos parasitológicos são os mais utilizados, dentre esses a técnica do esfregaço, técnica de microhematócrito de Woo e Buffy Coat (SILVA et al., 1997).

O primeiro relato de Tripanossomose em bovinos no Brasil foi em 1946 por Boulhosa, no estado do Pará (SNARK, 2017) enquanto que no estado de Minas Gerais somente em 2008 (CARVALHO, 2008). Desde então essa doença vem se destacando por seu crescente impacto econômico em rebanhos leiteiros (ABRÃO, 2009), além do despreparo dos envolvidos perante a tripanossomose. O objetivo do estudo é relatar um surto de tripanossomose bovina em Minas Gerais e evidenciar a importância da profilaxia desta doença infectocontagiosa uma vez que são vários os prejuízos causados. 

Casuística

O estudo foi realizado em uma propriedade rural de criação de bovinos leiteiros, localizada no município de Esmeraldas, Minas Gerais no mês de agosto de 2017. O rebanho é constituído por 61 animais em lactação, divididos em 3 lotes equivalentes a produção, alta, média e baixa. Os animais possuem uma dieta a base de silagem de milho, cana e capim na época da seca. O lote de alta produção consome cerca de 6kg de ração por animal por dia. O manejo de ordenha é realizado duas vezes ao dia, com auxílio de hormônio ocitocina antes da ordenha e não é realizada a troca de agulhas entre os animais, apenas imersão em uma solução desinfetante.

Na anamnese, segundo o proprietário, cerca de 10 animais haviam morrido, apenas as fêmeas adultas apresentavam o quadro clínico e que há 30 dias antes do surto houve compra de animais vindo da cidade de Rio Manso, Minas Gerais. Os sinais clínicos apresentados foram, diarreia fétida, geofagia, agravamento nos problemas de cascos, abortos, perda de escore corporal, além de significativa queda na produção de leite, onde em torno de 20 animais tiveram sua lactação interrompida devido à baixa produção.

A partir do quadro que os animais apresentavam, além do uso inadequado de ocitocina no manejo de ordenha, sendo esta, uma causa de transmissão iatrogênica, suspeitou-se que os animais estavam infectados por T. vivax. O diagnóstico foi feito a partir de dois testes parasitológicos, sendo eles, a técnica de microhematócrito de Woo e o teste da gota espessa (SILVA et al., 1997), para isso, de cada animal em lactação foram colhidos em torno de 2 ml de sangue por venopunção da veia epigástrica cranial superficial utilizando-se agulhas 25x0,8 mm em tubos contendo anticoagulante (EDTA), para realização do procedimento. Avaliou-se também o volume globular dos animais. Os animais positivos para Trypanossoma spp. no teste de gota espessa eram confirmados como infectados, entretanto, os animais que foram negativos nesse teste, foram submetidos ao teste método de Woo, uma vez que esse apresenta maior sensibilidade, e é considerado o melhor teste para ser feito á campo (BASTOS, 2015). Ao teste de gota espessa, 57% dos animais mostraram-se positivos enquanto que no teste de Woo, 73% dos animais foram positivos. Além disso, foi constatado que 60% do rebanho apresentou quadro de anemia.

Foi preconizado o tratamento para todo o rebanho em lactação, utilizando a base cloreto de isometamidium na dose de 1,0 mg/kg de peso vivo, sendo necessário 3 aplicações com intervalo de 4 meses, juntamente com uma terapia suporte de fluidoterapia aos animais anêmicos graves e que não estavam se alimentando. A fluidoterapia oral utilizada era constituída de 160 gramas de cloreto de sódio, 20 gramas de cloreto de potássio, 10 gramas de cloreto de cálcio, 300 ml de propilenoglicol, misturados em 20 litros de água morna, sendo administrados uma vez ao dia.

Após 50 dias do início do tratamento, retornou-se à propriedade para avaliar a resposta dos animais diante a primeira dose do tratamento preconizado. Foi relatado que os animais haviam cessado o hábito de geofagia, os quadros de diarreia e os abortos. Outros valores relevantes são que 16 animais vieram a óbito desde o início do surto e a média de produção de leite do rebanho caiu em 4kg por animal, por dia.

Figura 1: Animal com perda de peso no primeiro dia de visita.

Fonte: Foto de Silvia Amorim

Novas amostras de sangue foram coletadas dos animais em lactação e de algumas vacas secas para que fosse feito o teste de gota espessa, o método de Woo, e avaliação de quais animais ainda estavam em um quadro anêmico. Todos os animais foram negativos aos dois testes parasitológicos, 7% dos animais ainda apresentaram um quadro de anemia. Tal resultado demonstrou a eficiência em resposta a primeira dose do tratamento, como também uma consequência resultante a parasitemia.

Discussão

Dentre os fatores que acentuaram a ocorrência da doença nessa propriedade incluem, o compartilhamento de agulhas entre os animais para aplicação de endovenosos como relatado por Cadioli et al, 2012, principalmente a administração de ocitocina, hormônio utilizado para ajudar na descida do leite, Bastos et al., 2013 que normalmente é utilizado a mesma agulha para todo o rebanho, sendo então uma forma de transmissão de patógenos, além de levar a flebites e incomodo na hora da aplicação, que também foram encontrados nos animais doentes.

Figura 2: Agulhas e seringas utilizadas para aplicação de ocitocina

Fonte: Foto de Silvia Amorim

Além disso, outro fator relevante é a entrada de novos animais na propriedade que até então era uma área livre, Oliveira et al., 2009 afirma que o transito de animais para diferentes regiões favorece a disseminação da enfermidade. Apesar do contínuo fornecimento de alimento, observou- -se o emagrecimento progressivo dos animais, decorrente da diminuição do apetite, devido à alta parasitemia e manifestações clínicas como anemia, sendo essa um achado comum em infecções por T. vivax (SEIDL et al., 1999), no presente relato 70% dos animais apresentaram na primeira visita um quadro anêmico, e queda no peso corporal.

Foi relatado que haviam ocorrido casos esporádicos de abortos, número esse que não foi constatado devido à falta de organização e anotações zootécnicas por parte da propriedade, todavia SEIDL et al, 1999 afirma que apesar da enfermidade não apresentar sinais patognomônicos, o aborto é um dos sinais apresentados por animais infectados por T. vivax.

A morte de animais com um curso clínico inferior a 48 horas e a presença de animais crônicos evidencia que a enfermidade se manifestou na propriedade tanto na forma aguda quanto na forma crônica. ABRÃO, 2009 afirma que podem ocorrer casos agudos e levar o animal a morte ou progredir para uma fase subaguda e crônica, ambos vistos na propriedade.

Conclusões

O estudo permitiu relatar mais uma ocorrência de um surto de tripanossomose bovina no estado de Minas Gerais. As condições identificadas na propriedade, como ambiente propício aos vetores, a introdução de novos animais no rebanho, uso compartilhado de agulhas e seringas para a administração de ocitocina são aspectos importantes que provavelmente estiveram associados à instalação e disseminação do agente no rebanho. Mesmo com toda complexidade em contabilizar os prejuízos resultantes da enfermidade diagnosticada, uma vez que envolvem mortes de animais, abortos, redução da produção de leite e ganho de peso, problemas de cascos, altos custos das drogas tripanocidas além das despesas com assistência técnica, ficou evidente que esses foram significativos.

Referências Bibliográficas

ABRÃO, D. C. et al. Impacto econômico causado por Trypanossoma vivax em rebanho bovino leiteiro no estado de Minas Gerais. Ciência Animal Brasileira, Goiânia, v. 1, p. 672-676, 2009.

BARBOSA, J. C. et al. Primeiro surto de tripanossomose bovina detectado no estado de Goiás, Brasil. Ars Veterinária, Jaboticabal, v. 31, n. 2, p. 100, 2015.

BASTOS, T. S. A. et al. Surto de Tripanossomose bovina desencadeado após manejo inadequado durante aplicação de medicamento endovenoso. Ars Veterinária, Jaboticabal, v. 29, n. 4, p. 63, 2013.

BASTOS, T. S. A. et al. Detecção de Trypanosoma vivax por diferentes técnicas de diagnóstico parasitológico realizadas à campo. Ars Veterinária, Jaboticabal, v. 31, n. 2, p. 40, 2015.

CADIOLI, F. A. First report of Trypanosoma vivax outbreak in dairy cattle in São Paulo state, Brazil. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, Jaboticabal, v. 21, n. 2, p. 118-124, 2012.

CARVALHO, A. U. et al. Ocorrência de Trypanosoma vivax no estado de Minas Gerais. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, Belo Horizonte, v. 60, n. 3, p. 769-771, 2008.

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OLIVEIRA J. et al. First report of Trypanosoma vivax infection in dairy cattle from Costa Rica. Veterinary parasitology, v.163, n. 1, p. 136-39, 2009.

PAIVA, F. et al. Trypanosoma vivax em bovinos no Pantanal do Estado do Mato Grosso do Sul, Brasil: I Acompanhamento clínico, laboratorial e anatomopatológico de rebanhos infectados. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, Jaboticabal, v. 9, n. 2, p. 135-141, 2000.

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SILVA, R. A. M. S.; et al. Trypanosoma evansi e Trypanosoma vivax Biologia, diagnóstico e controle. Corumbá: Embrapa, 2002.

SNARK, A. Prevalência e fatores de risco associados a infecção por Neospora caninum e Trypanossoma vivax em bovinos leiteiros e ocorrência de N. caninum e parasitos gastrointestinais em cães de propriedades rurais do Oeste do Paraná, Brasil. 2017. 120f. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-graduação em Ciência Animal, Universidade Federal do Paraná, Palotina, Paraná, 2017.