Momento para pecuária leiteira exige cautela do produtor

13-10-2020 10:37:42 Por: CNA

Momento para pecuária leiteira exige cautela do produtor
Ainda sob reflexo da pandemia de coronavírus o ano de 2020 continua repleto de incertezas. No caso da pecuária de leite, as dúvidas no mercado no início da pandemia deixaram os produtores com grande receio sobre qual a direção seguir, diminuir a produção como alguns laticínios sugeriram, ainda no mês de maio desse ano, descartar animais de baixa produção tendo em vista os bons preços pagos pela arroba bovina, ou estruturar seu negócio de forma a enxugar custos e seguir produzindo.

Os mais otimistas se propuseram a seguir em frente e agora colhem os frutos de um bom planejamento da atividade. O setor encontrou desafios, principalmente aqueles condicionados ao consumo de derivados lácteos, em um primeiro momento afetado fortemente pelo isolamento social, mas que em seguida encontrou força com a incorporação na renda das famílias brasileiras do auxílio emergencial. Esse cenário se somou ao período de sazonalidade típica da produção de leite, resultando em consecutivos aumentos nos preços pagos ao produtor nos últimos meses.

Em setembro, especificamente, a “Média Brasil” líquida pesquisada pelo Cepea atingiu R$ 2,13/litro, um recorde real da série, analisando os valores mensais deflacionados pelo IPCA de agosto/20. De janeiro a setembro deste ano, o aumento no preço do leite é de expressivos 56,4%.


Por outro lado, o movimento de alta também é notado nos custos de produção, dados do Projeto Campo Futuro (CNA/SE-NAR), que conta com a parceria técnica do Cepea, indicam que o Custo Operacional Efetivo (COE), acumula alta de 8,1% de janeiro a agosto, tendo-se como base a “média Brasil” (BA, GO, MG, PR, RS, SC e SP), no mesmo período do ano passado, o aumento havia sido de 0,14%. Analisando os dados do referido mês em comparação a agosto de 2019 a alta chega a 12,0%. Dentre os estados acompanhados pelo Projeto Campo Futuro, os que apresentaram as elevações mais fortes nos custos foram Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. De janeiro a agosto, os desembolsos nestes estados aumentaram 11,53%, 9,35%, 7,71% respectivamente.

Os custos foram impulsionados pela alta generalizada dos grãos, em especial do milho e do farelo de soja, importantes componentes das rações concentradas, insumo esse que, segundo os dados acompanhados, acumula alta de 13,4% no ano. Os custos com os concentrados chegam a comprometer até 30% da receita anual de uma propriedade de bom desempenho produtivo.

Tendo em vista que o ano de 2019 os dados do projeto apontam que o preço recebido pelos produtores avançou 13,4% em relação ao ano anterior, e o custo operacional efetivo apresentou o incremento de 28,6% no mesmo período, o ano de 2020, até o momento, tem se mostrado um ano de recuperação de margens para o produtor de leite no país. Contudo a forte valorização do dólar tem elevado os preços de importantes insumos pecuários e esse contexto deve continuar se refletindo sobre o bolso do produtor nos próximos meses.

Outro fator importante a se considerar é a relação de troca, tendo como base o preço do leite na “média Brasil” e a média do preço de milho nas regiões acompanhadas pelo Cepea, de janeiro a agosto. Sob essa ótica o poder de compra do produtor de leite caiu frente ao mesmo período do ano passado. Entre janeiro e agosto de 2020, com a venda de um litro de leite, o produtor comprou, em média, 1,97 quilo de milho, sendo que, no mesmo período do ano passado, era possível adquirir 2,53 quilos. Observando a mesma análise para o farelo de soja, a venda de um litro de leite possibilita atualmente a compra de 0,99 quilo do derivado, contra 1,22 quilo de janeiro a agosto de 2019. Isso evidencia que, apesar da recente alta na receita, o produtor perdeu o poder de compra frente a dois dos principais insumos utilizados pela atividade.


Olhando a frente, as referências do mercado futuro sinalizam que as expectativas dos agentes são de continuidade dos preços firmes para a soja e o milho, até o final de 2020 e início do ano que vem. Por outro lado, sazonalmente, os preços do leite tendem a recuar com a chegada das chuvas e a melhoria das condições das pastagens no Sudeste e Centro-Oeste do país, regiões responsáveis por 45,8% da produção nacional.

Já pelo lado da demanda, a redução dos valores pagos no auxílio emergencial pode retrair o consumo observado até setembro, alterando, assim, o apetite de compra e a competição entre indústrias pelo leite no campo. Diante disso, cabe ao produtor atenção e monitoramento constante dos números da sua propriedade ressaltando que apenas a elevação dos preços não resulta em melhoria das margens da atividade, o foco deve estar no aumento da eficiência produtiva, garantindo assim margens sustentáveis ao longo do tempo.