Alta nos custos de produção do leite pede maior cautela em 2021

11-02-2021 14:46:35 Por: CNA Brasil

Alta nos custos de produção do leite pede maior cautela em 2021
Nos primeiros meses de 2020 o cenário que se desenhava era o de baixa perspectiva quanto a melhorias nas condições produtivas para o setor lácteo brasileiro. O principal fator que preocupava o setor era a baixa atratividade promovida pelas cotações do litro de leite pago ao produtor e a falta de perspectivas quanto a um cenário mais favorável. Contudo a visão que se construía naquele momento se mostrou bem menos desafiadora do que realmente o ano se revelou, graças principalmente às implicações promovidas pela pandemia que culminou em incremento no consumo e consequentemente uma recuperação dos preços pagos pela matéria prima.

Para o produtor a capacidade de gerir custos e com isso obter melhores margens com a atividade foi colocada à prova praticamente o ano inteiro. Para ilustrar parte desse desafio, a seguir são apresentados dados monitorados pelo Projeto Campo Futuro, iniciativa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA-ESALQ/USP).


Em termos de custos, o Custo Operacional Efetivo (COE), aquele referente ao desembolso efetivo do produtor, registrou valorização acumulada no total do ano de 23,24% na “média Brasil” (BA, GO, MG, PR, RS, SC e SP). Os dados do Projeto apontam que os modais produtivos dos estados de Minas Gerais e Santa Catarina foram os mais afetados com a elevação dos custos, 25,73% e 33,19% respectivamente ao longo de 2020.

O principal fator influenciador para a elevação dos custos na pecuária leiteira foi o aumento dos gastos com alimentação concentrada (ração) do rebanho. O aumento acumulado para esse insumo foi de 44,13% no fechamento de 2020. Outro insumo que também contribuiu para a valorização dos custos foram os gastos com a suplementação mineral que registrou elevação de 13,24% no acumulado do ano. Essa última motivada pelo alto valor do dólar em relação ao real, em média com um patamar durante o ano 30,96% maior que o estabelecido em 2019. Esse cenário encareceu os custos com a aquisição de matérias primas que normalmente são importadas para a produção destes insumos minerais.

Gráfico 1. Variação em 2020 do Custo Operacional Efetivo (COE) e dos gastos com Adubos e Corretivos, Alimentação Concentrada e Suplementação Mineral na Pecuária Leiteira.
imagem mostra Variação em 2020 do Custo Operacional Efetivo e dos gastos com Adubos e Corretivos, Alimentação Concentrada e Suplementação Mineral na Pecuária Leiteira
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Fonte: Projeto Campo Futuro (CNA/SENAR). Elaboração: Cepea/Esalq-USP/CNA.

Analisando especificamente os gastos com concentrado, a influência dos preços das matérias primas para produção deste produto foi significativa ao longo de 2020. A soja se valorizou em 74,5% comparando os preços praticados em dezembro em relação a janeiro de 2020 (INDICADOR DA SOJA ESALQ/ BM&FBOVESPA – PARANAGUÁ). O mesmo aconteceu com o milho que no mesmo período teve elevação de 47,5% (INDICADOR DO MILHO ESALQ/BM&FBOVESPA). Os estados que tiveram maior alta nos custos de concentrado em 2020 foram Minas Gerais (55,53%) e Santa Catarina (59,08%).

Diante desses dados, o comportamento da relação de troca entre o preço médio recebido pelos produtores de leite ao longo de 2020 e o preço pago pela saca de milho pode ser analisado no Gráfico 2. Após o período de janeiro a maio de 2020, onde o poder de compra do produtor se manteve praticamente constante, a melhora nos preços recebidos pelo litro de leite comercializado entre junho a setembro, proporcionou aos produtores um certo fôlego com relação as suas margens.


Contudo, ao final do ano esse indicador voltou a sinalizar perda no poder de compra por parte dos produtores. Para adquirir uma saca de milho de 60kg no mês de dezembro foram necessários 35,43 litros de leite, praticamente o mesmo valor observado um ano antes. Em média a relação de troca (Leite/Saca de Milho) no ano de 2020 foi de 34,34 litros/ saca, 21,82% maior que em relação média do ano de 2019.

Gráfico 2. Comportamento da relação de troca entre o preço médio recebido pelo litro de leite ao longo de 2020 e o preço médio da saca de 60 kg de milho.
imagem mostra comportamento da relação de troca entre o preço médio recebido pelo litro de leite ao longo de 2020 e o preço médio da saca de 60 kg de milho
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Fonte: Projeto Campo Futuro (CNA/SENAR). Elaboração: Cepea/Esalq-USP/CNA

Por fim, analisando a margem bruta unitária da atividade leiteira, indicador que reflete a diferença entre o preço recebido pelo litro de leite e o custo operacional efetivo (COE) por litro, tem-se a evolução demonstrada no Gráfico 3. Utilizando como parâmetro dados do Projeto Campo Futuro (CNA/Senar), a margem bruta por litro esteve em média ao longo do primeiro semestre de 2020, 28,3% menor do que a observada no mês referência, janeiro de 2017.

Influenciado pela considerável alta dos preços a partir de julho, a margem bruta unitária se recuperou no segundo semestre de 2020, fechando o ano com um resultado médio 4,85% maior ao dado observado no mês de janeiro de 2017 (valores corrigidos pelo IGP-DI de dez/20).

Gráfico 3. Evolução da Margem Bruta por litro de leite com base no resultado obtido em janeiro de 2017.
imagem mostra Evolução da Margem Bruta por litro de leite com base no resultado obtido em janeiro de 2017
Fonte: Projeto Campo Futuro (CNA/SENAR). Elaboração: CNA

Para o novo ano que se inicia há uma série de fatores que tendem a influenciar o gerenciamento da atividade leiteira no país. Balizado principalmente em um possível cenário de menor consumo interno, tendo em vista o fim do pagamento do auxílio emergencial, e um menor estimulo ao aumento da produção no campo devido às condições desfavoráveis promovidas pelos preços de insumos, o ano de 2021 deverá ser planejado pelos produtores com prudência e total controle de seus processos produtivos.