Ênfase na utilização de forrageiras é alternativa para tornar a produção de leite mais barata

22-07-2021 14:24:17 Por: Correio do Povo. Foto: Alcides Okubo Filho / Embrapa

Ênfase na utilização de forrageiras é alternativa para tornar a produção de leite mais barata
Um novo olhar sobre a forma de alimentar o gado leiteiro pode levar a atividade a um patamar mais sustentável e a um melhor equilíbrio de renda para o produtor. Presente na produção leiteira desde sempre, a alimentação do plantel a pasto vem ganhando protagonismo nos últimos dois anos diante da alta dos preços do milho e da soja, próxima dos 100%, e de duas estiagens sucessivas que prejudicaram a qualidade e a quantidade de milho silagem plantado nas propriedades. A alternativa, entretanto, não é para todos. Para incrementar as pastagens e se beneficiar de uma redução de custos de 50% ou mais, o produtor precisa de área para plantio de forrageiras, recursos para investir em insumos e assistência técnica que o oriente tanto na escolha das plantas quanto na composição de uma dieta balanceada para as vacas.

Considerada uma das maiores cooperativas do Brasil, a CCGL vem conscientizando os seus cerca de 3,5 mil produtores de leite a priorizar o pasto desde 2005. O supervisor técnico da produção de leite na cooperativa, Luis Otávio da Costa Lima, relata que foi um longo processo, o qual passou pela melhoria da qualidade do solo nas propriedades, com novas práticas de adubação, e das formas de manejo. Lima ressalta que a utilização das forragens como fonte principal de nutrição torna o sistema de produção leiteira mais resiliente e menos vulnerável a crises como a vivida hoje, quando a saca de milho ultrapassa os R$ 90,00 e a tonelada do farelo de soja (que compõe a parte proteica das rações) os R$ 2,3 mil. Atualmente, 95% dos produtores que fornecem leite à CCGL, em 170 municípios, de Lagoa Vermelha, no Norte do Estado, a Santa Vitória do Palmar, no Sul, têm as pastagens como alimento principal do rebanho.


Segundo o supervisor, uma vaca come em média de 15 a 17 quilos de matéria seca de pasto por dia. Este é o limite máximo de ingestão diária deste tipo de alimento e garante uma média produtiva de 15 a 20 litros de leite por dia, dependendo do animal. Para garantir uma produção considerada regular, de 25 a 30 litros, é preciso acrescentar à dieta da vaca em torno de 5 quilos de suplementação, composta pela silagem de milho e a ração com proteína. Nesta proporção, o produtor gastaria por vaca cerca de R$ 14,75 ao dia.

Quando a base alimentar é a silagem de milho e a ração, usadas nos sistemas de gado semiconfinado e confinado, o custo é maior (a produção também, de 10 a 15 litros a mais), tendo em vista que o quilo do milho silagem com planta inteira oscila de R$ 0,38 a R$ 0,45.  “No caso predominante de uso do milho, é preciso plantar, ter quem colha, quem misture o alimento e quem leve até o cocho e isso tudo representa custo”, lembra Lima.

No Rio Grande do Sul, conforme dados da Emater/RS-Ascar, 50,4 mil famílias, distribuídas em quase todos os 497 municípios, têm como fonte principal de renda a atividade leiteira. A instituição preconiza o uso de pastagens na produção de leite desde sempre. O gerente técnico e coordenador da área de leite da Emater, Jaime Ries, reconhece, contudo, que o sistema tem realmente limitações, tanto de oferta de pasto, dada a sazonalidade, como de possibilidade de aumento de área para este tipo de cultivo, uma vez que a maioria absoluta dos produtores está nas pequenas propriedades da agricultura familiar. Ries alerta que as dificuldades em equilibrar custo e renda vem tirando da atividade, gradativamente, as famílias produtoras. Na próxima Expointer, em setembro, a associação vai divulgar uma atualização do relatório que faz a cada dois anos da produção leiteira gaúcha. “Ainda não temos os números, mas o sentimento que temos indo a campo é de que o número dos produtores segue diminuindo”, diz.

O gerente técnico sustenta que a produção de leite não sofre prejuízos quando a alimentação prioritária dos animais é a pastagem. Ressalta, inclusive, que o inverno é a estação na qual mais se produz no Estado graças à qualidade e disponibilidade das forrageiras – aveia e azevém na maioria dos locais.


“Anualmente, a Emater leva ao produtor informações para que faça um bom planejamento forrageiro, indicando as melhores espécies e épocas de plantio, de forma que garanta na sua propriedade a disponibilidade de pastagens”, acrescenta Ries.

A Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag), que representa a agricultura familiar e o produtor de leite diretamente, vê na produção leiteira com base a pasto uma excelente alternativa para a diminuição dos custos. “Porém, há uma limitação para os produtores conseguirem implementar esta prática, que é a área de terra que eles possuem”, observa o assessor de Política Agrícola, Kaliton Prestes. Nas pequenas propriedades, na maioria das vezes, a área disponível para plantio de pasto precisa ser semeada com o milho silagem, do qual o produtor também não pode prescindir.

O desafio da eficiência - O Rio Grande do Sul já teve quase 66 mil produtores de leite, que foram desistindo da atividade pelo peso dos custos e das exigências qualitativas bastante elevadas nos últimos anos, segundo observações da Emater/RS-Ascar. No rebanho atual, de quase 1 milhão de vacas leiteiras, as raças predominantes são a Holandês e a Jersey. A coleta média diária dos atuais 50,4 mil produtores está na faixa dos 150 litros de leite, mas, segundo relatório de 2019 da Emater, pode variar de 50 a 2,5 mil litros por dia, dependendo da propriedade rural. Ainda conforme o levantamento, que será atualizado neste ano, 94,4% das propriedades têm o sistema alimentar baseado em pastagens, 3,7% em semiconfinamento e somente 1,8% em confinamento total. Mesmo que já use o modelo das pastagens, essa maioria tem o desafio de ampliar a produtividade e a qualidade nutricional das forrageiras, até porque tem pouco espaço para expandir o cultivo.

Assistente técnico do escritório municipal da Emater em Venâncio Aires, Diego Barden revela que a alta dos custos tem realmente diminuído o número de produtores no município, estimado hoje em 2 mil, mesmo que o preço do litro de leite pago pela indústria tenha melhorado. De acordo com ele, o estímulo à alimentação com base no pasto é permanente, mas há dificuldades por parte de algumas famílias em melhorar sua performance. “Há uma parcela dos produtores que garantiu a produtividade diária com a silagem, com pequenas áreas para o plantio de milho e até com uso de áreas arrendadas com este fim”, conta Barden. Nestes casos, diz, com a crise recente no preço dos grãos e as estiagens em 2020 e 2021, quem vinha alimentando o gado com base na silagem e na ração concentrada teve mais dificuldades.


“Sempre ressaltamos que a alimentação a pasto era a mais barata e, neste último ano, ela ficou muito mais barata; com isso, muitos começaram a se preocupar em ampliar o uso das forrageiras”, constata o técnico, sem deixar de apontar que alguns, mesmo que quisessem, não teriam como ampliar a área com pastagens que mantêm ao longo dos anos. “Por isso, recomendamos melhorar as áreas existentes apostando, entre outras coisas, na busca pela qualidade do solo e por cultivares mais produtivas”, destaca.

A mais importante orientação, agrega Barden, é que o produtor tenha a certeza de que o gado vai ficar bem nutrido com o pasto e que a suplementação seja só para assegurar a produtividade nos momentos de escassez de forrageiras.

Mesmo em momentos como a troca de estações, quando a disponibilidade de pasto fica menor, é possível evitar essa queda de oferta, afirma a técnica da Associação de Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), Íris Beatriz dos Santos, ao apontar como estratégia a sobressemeadura de espécies forrageiras de inverno em áreas ocupadas por espécies perenes de clima tropical para aproveitar o período em que estas ficam pouco produtiva ou mesmo dormentes.

Íris lembra também que além de preocupar-se com a produção, é preciso que o produtor preste atenção às exigências dos animais em pastoreio. “O planejamento do sistema de produção de forragens é indispensável, pois o objetivo é equilibrar a máxima oferta de alimentos de alta qualidade com a exigência nutricional dos animais e evitar, ou pelo menos reduzir, períodos de déficit forrageiro e a necessidade de suplementação”, pondera.

Programa financia compra de área para lavouras - O assistente agrícola da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag), Kaliton Prestes, afirma que uma nova modalidade de financiamento lançada neste ano dentro do Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF) pode ajudar o produtor de leite a adquirir áreas para a implantação de mais lavouras forrageiras. A modalidade PNCF Empreendedor está disponível nos agentes financeiros oficiais em todas as regiões do país.


Os recursos podem ser utilizados na aquisição de terras ou na estruturação da unidade produtiva. Para o enquadramento, o produtor deve ter renda familiar anual de até R$ 244,3 mil e patrimônio inferior a R$ 500 mil. O volume financiado pode chegar a R$ 158,3 mil, com 25 anos de prazo para pagar, 36 meses de carência e juros de 4% ao ano.

Forrageiras ganham espaço - Há 20 anos tendo na atividade leiteira sua principal fonte de renda, o produtor Volnei Schreiner, de Victor Graeff, na Região do Alto Jacuí, diz ter mudado suas estratégias para fazer frente aos custos. Dos 20 hectares da propriedade, onde mantém 32 vacas em lactação, mais da metade são destinados para a produção de alimentos para o rebanho. O produtor, associado à CCGL, consegue uma média diária de 24 litros de leite por vaca, mesmo tendo reduzido a suplementação dos animais de 7 para 4 quilos por dia. “Com boa oferta de pasto, consigo diminuir a parte proteica da ração, de 22% para 18%, o que a barateia”, raciocina. “Mas é bom lembrar que não existe criar gado de leite eliminando a suplementação”, ressalva.

Neste ano, foram plantados na fazenda – onde trabalham ainda a mãe e o pai de Volnei, Ernani e Gisela; a esposa, Nêmora; e os filhos gêmeos, Bruno e Gabriel – 9 hectares de pastagens e 6 hectares de milho silagem. “Aumentamos em 3 hectares a área de pasto e em 1 hectare a de milho”, relata o produtor. Schreiner conta que nos últimos dois anos a produção de milho sofreu com a falta de chuva, os estoques de alimento da família para o gado diminuíram e foi preciso voltar a práticas que haviam sido deixadas de lado na propriedade, como o plantio do triticale para a silagem de inverno. Além disso, a propriedade também tem feito estoque de uma mistura de resíduos de aveia, azevém e milheto para oferecer no caso da escassez de milho.

“Mas produzir pasto não está fácil”, reclama Schreiner. De acordo com o produtor, os custos de adubação das áreas de pastagens subiram mais de 50% de um ano para o outro. “No ano passado gastei R$ 2,15 mil pela tonelada de adubo e neste ano R$ 3,68 mil”, compara. “Na ureia, o custo subiu de R$ 1,67 mil para R$ 2,99 mil.” Mesmo assim, ele elogia a assistência que recebe da cooperativa. “Os agrônomos e os veterinários nos ajudam muito, indicando as melhores cultivares e mostrando como montar a melhor dieta para os animais”, conclui.

Aposta em outros grãos e cultivares mais nutritivas - Assegurar a produção média de 850 litros de leite por dia diante da alta dos custos com alimentação do rebanho tem sido um desafio para o produtor Jonas Leonardo Fetter, de Augusto Pestana, no Planalto Médio. Seu plantel, predominantemente da raça Holandês, é composto por 34 vacas em lactação, sete vacas secas e mais 42 novilhas em fase de desenvolvimento. A produtividade das vacas gira em torno dos 25 litros por dia, o que é considerado excelente na alimentação com base no pasto. “Para enfrentar essa crise a gente foi diminuindo gradativamente a ração, em quantidade e em índice de proteína”, explica. Cada animal, que chegava a receber 10 quilos de suplementação por dia, hoje consome de 5 a 6 quilos. O concentrado também teve o índice de proteína diminuído de 22% para 18%. “Fomos ajustando a dieta para fazer a melhor economia e a situação só não fica mais difícil pela quantidade e pela qualidade do nosso pasto”, relata.


Fetter explica que na propriedade, no distrito de Linha São João, onde divide as atividades com a esposa, Nadine, são reservados 30 dos 50 hectares para o plantio de forrageiras, entre elas o azevém e as aveias de inverno e verão. As dificuldades para conseguir milho silagem e o preço do milho fizeram com que o produtor optasse por ter o mínimo do grão na oferta de comida para os animais, investindo em cultivares de pasto mais nutritivas e em outros grãos, como o triticale.

“Com apoio da assistência técnica da Cooperativa Santa Clara, melhoramos a qualidade do nosso pasto investindo em cultivares mais nutritivas, como a aveia ucraniana”, detalha o produtor. Além do alto teor nutricional, a aveia ucraniana tem vantagens produtivas, apresentando o dobro do volume da aveia preta comum, cobertura de solo e capacidade para até oito cortes. Fetter não viu necessidade de ampliar a área plantada e diz que a hora é de ser “cauteloso” para equilibrar o negócio baseado no leite.

Duas opções na mesma fazenda - Das muitas decisões que o produtor de leite precisou tomar nos últimos anos para garantir a viabilidade financeira de seu negócio, uma ganhou força desde o ano passado: o envio de gado leiteiro para o abate, como forma de aproveitar o aquecimento do preço da carne. No levantamento Cotações Agropecuárias, da Emater/RS-Ascar, é possível acompanhar o avanço do preço do quilo vivo da vaca. O produto, que em 9 de julho de 2020 custava R$ 6,84, chegou a R$ 10,15 na mesma data de 2021. Se comparado à média histórica, de R$ 5,46 o quilo, a valorização ultrapassa os 85%.

Para analisar as possibilidades desse novo propósito para o gado leiteiro, a Embrapa Pecuária Sul, de Bagé, está iniciando um estudo sobre o cruzamento de raças leiteiras com touros de gado de corte. Quem conduz a investigação, ainda em fase teórica, é o pesquisador José Carlos Ferrugem Moraes. Segundo ele, a possibilidade de produzir gado de corte em empreendimentos de produção de leite pode apresentar muitas vantagens, sendo a principal delas a elevação do negócio a um patamar de mais resiliência. “O produtor terá dois produtos básicos dentro do mesmo sistema e com novas oportunidades de remuneração”, diz.


O principal objetivo do estudo, adianta o pesquisador, será comprovar que o cruzamento de vacas leiteiras com reprodutores de corte produzirá exemplares com mais aproveitamento de carne por carcaça e mais aceitação no mercado frigorífico. Ferrugem afirma que experiências deste tipo já são feitas em países como a Irlanda, onde a taxa de natalidade de animais cruzados da raça Holandês com reprodutores Angus e Hereford aumentou 50% entre 2002 e 2018. Ele observa, também, que esta opção ganha força porque as dificuldades enfrentadas pelo produtor de leite no mundo são muito parecidas e estão no campo da falta de mão de obra, má remuneração e resistência à sucessão familiar, uma vez que os filhos não querem continuar uma atividade tão penosa nas tarefas a serem executadas diariamente.

A ideia, de acordo com Ferrugem, é estabelecer um sistema de produção de carne dentro de um sistema de produção de leite mantendo a população leiteira original e, por meio do uso de sêmen sexado, aumentar o número de terneiros para o abate. “É possível que o produtor que venha a adotar este modelo tenha de atender a novos requerimentos de alimentação, com aumento das áreas físicas de pastagem”, ressalva.

As informações são do Correio do Povo. Foto: Alcides Okubo Filho / Embrapa.