Importações elevadas, demanda fraca, El Niño e custos em alta: os desafios do leite para o quarto trimestre

14-09-2026 17:42:38 Por: CILeite. Foto: Pixabay

Importações elevadas, demanda fraca, El Niño e custos em alta: os desafios do leite para o quarto trimestre
O ano de 2026 tem sido favorável ao produtor de leite brasileiro. O Indicador Cepea alcançou R$ 2,8761 por litro em julho, o maior patamar do ano e alta de 42% sobre janeiro. Parte dessa alta é sazonal, própria da transição das águas para a entressafra, mas o patamar não é. Contra agosto de 2025, o leite spot em Minas Gerais está 16,5% acima. O que merece atenção não é apenas a magnitude do ganho, mas o ambiente em que ele ocorreu: importações em patamar historicamente elevado e demanda doméstica enfraquecida.

A captação formal do segundo trimestre foi recorde para o período desde o início da série (1997), com 6,61 bilhões de litros, volume que, isoladamente, pressionaria os preços para baixo. O que sustentou a valorização foi o ritmo: o crescimento de apenas 1,0% sobre o mesmo trimestre de 2025, que havia registrado alta de 10,2%, ficou muito aquém do observado nos dois anos anteriores. O spot operou 12% acima do preço ao produtor, sinal de indústria comprando na margem.

Os primeiros sinais de virada do ciclo de preços já apareceram. O leite spot recuou pela terceira quinzena consecutiva e fechou a primeira quinzena de setembro em R$ 2,928 por litro, 9,3% abaixo do pico de julho, com queda em todos os estados acompanhados. Três dos quatro Conseleites projetam redução para o leite entregue em agosto: Paraná (−0,4%), Rio Grande do Sul (−1,0%) e Santa Catarina (−1,7%). Apenas Minas Gerais é a exceção, com alta de 1,2%. O próprio Cepea sinaliza recuo do Indicador no encerramento do terceiro trimestre.

Do lado dos custos, o alívio observado no primeiro semestre já se encerrou: o ICPLeite/Embrapa subiu 1,14% em julho e 2,61% no acumulado do ano, e em agosto o farelo de soja avançou 8,7% e o milho 7,3%. A relação de troca, que havia melhorado de 33,6 para 23,6 litros de leite por saca de milho entre janeiro e julho, começa a perder parte do ganho. Some-se a isso o custo do capital: a Selic a 14,00% ao ano corresponde a um juro real de 9,30%, o maior entre as principais economias do mundo, e os pedidos de recuperação judicial no agronegócio somaram 474 no primeiro trimestre, alta de 21,9% sobre 2025.

As importações brasileiras confirmam a mudança de patamar. Em agosto, o país internalizou 224 milhões de litros equivalentes, alta de 39,6% sobre agosto de 2025 e sexto mês consecutivo acima de 200 milhões. Quase 90% do volume vem do Mercosul (Argentina com 66,3% e Uruguai com 23,0%) e cerca de três quartos é leite em pó. Entre as categorias, apenas o leite em pó integral avançou (+7,9%), justamente o produto que define a paridade de importação. O déficit da balança láctea chegou a 219 milhões de litros equivalentes no mês.

O preço do produto importado, por sua vez, é definido no mercado internacional, onde a oferta segue em expansão nas grandes bacias. As projeções para o segundo semestre, entretanto, apontam desaceleração, com recuo estimado de cerca de 1% na produção europeia, resultado de calor e seca, margens comprimidas, redução de 0,9% no rebanho e exigências ambientais. Nos leilões do GDT, o índice geral subiu nos quatro eventos mais recentes (+1,5%, +0,1%, +2,3% e +0,9%), recompondo a maior queda do ano, de 4,9%, em 7 de julho. Ainda assim, o índice permanece cerca de 7,5% abaixo do pico de março. A recuperação não é generalizada. No leilão de 1º de setembro, o leite em pó desnatado subiu 5,3%, a US$ 3.695 por tonelada (maior valor desde 2022), enquanto o integral ficou estável (−0,1%), a manteiga recuou 0,8%, a gordura anidra 1,3% e o cheddar 6,6%, este no menor nível desde 2023. Não se trata de alta de preços, mas de redistribuição de valor: da gordura e do queijo para os sólidos desengordurados. Com isso, o leite em pó desnatado ultrapassou o valor do leite em pó integral: ocorrência rara no histórico dos leilões.

A demanda é o elo frágil desse arranjo. O PIB brasileiro do segundo trimestre cresceu 0,5%, sustentado pela agropecuária (+2,8%), mas o consumo das famílias recuou 0,4%. O endividamento atingiu 82% das famílias, recorde pelo sexto mês consecutivo. Em agosto, o IPCA recuou 0,32% e o grupo alimentação e bebidas, 0,34%. Na contramão, o subgrupo leites e derivados subiu 1,06% no mês, e o leite longa vida acumula alta de 27,3% no ano. Dados do varejo mostram queda de 3,3% no volume e de 3,7% no faturamento real entre janeiro e agosto. Contudo, o leite longa vida, que responde por 57% do volume vendido, concentra 92% de toda a perda do ano.
O principal risco do quarto trimestre é climático, e há razões para considerá-lo maior neste ano, devido às incertezas com relação ao impacto do super El Niño previsto para out-dez/26, mas que pode se estender até mar/27.

Em síntese, 2026 entregou ao produtor mais do que se projetava, mas o quarto trimestre pede cautela. O ciclo de alta virou em agosto, os custos voltaram a subir e o risco climático se apresenta em intensidade potencialmente superior à dos anos recentes. A sustentação dos preços dependerá, nos próximos meses, de quanto a oferta interna recuar, do comportamento das importações e da capacidade da demanda doméstica (hoje concentrada em produtos de maior valor agregado) de absorver a disponibilidade de leite e derivados.

As informações são do CILeite.